sábado, outubro 01, 2005

Kazuo Ishiguro

- Como é que encaramos o facto de sabermos que vamos morrer? Quais são as coisas realmente importantes enquanto estamos vivos?
- (…) as pessoas são chocantemente capazes de explorar outras coisas. (…9 desde que isso esteja bem longe dos olhares, parecemos absolutamente dispostos a faze-lo.
- Será que o amor e a arte fazem realmente a diferença?
- Acho que estas coisas podem ser uma ilusão, mas, mesmo que o sejam, dão significado à nossas vida. As ilusões são importantes, exactamente como as memórias. Fica-nos o que recordamos de pessoas que perdemos, por exemplo.
- Enquanto crianças, a informação que recebemos é gerida ao ponto de realmente não percebermos muito, ou mesmo a maior parte do que se passa à frente dos nossos olhos. Crescemos a saber e a não saber.
- (…) com a clonagem não tememos a aniquilação, tememos uma profunda redefinição do que é um ser humano, tememos um realinhamento profundo da ordem social, acho que tememos tornar-nos uma subespécie, porque um novo tipo de humano será “melhor”.
- Há só uma coisa em comum entre estes dois medos: o receio de que, uma vez aberta a caixa, ela não se volte a fechar. Há o medo de que não seja possível voltar a trás e pôr tudo outra vez lá para dentro – e é tão fácil abrir a caixa.
- É um artifício muito útil para pensar no que significa ser humano.
- Eu sou daqueles que acham que as perguntam que nos vamos fazendo na literatura são praticamente imutáveis.
in Mil Folhas 04/09/05

Relativa importância

Os objectos e as pessoas têm a importância que lhes damos. Tal como diz o provérbio “beauty is in the eye of the beholder”, temos de ser nós a dar importância aos demais. Mas não o conseguimos fazer. Por isso não conseguimos compreender sofrimentos alheios, por isso as notícias que nos chegam de catástrofes distantes são exactamente isso: notícias de catástrofes distantes. Com tantas imagens banalizadas já por outras ficções, parece-nos somente outra inevitabilidade a que muito dificilmente estaremos sujeitos. Só vemos as imagens. Não percebemos os cheiros, não transpomos para nós uma possível perda, não vemos mais além. O nosso planeta é feito de muitos mundos e o nosso é somente este que nos rodeia numa proximidade relativa.

Será que o amor e arte fazem realmente diferença?

Não conheço muito das artes do amor-paixão, amor homem-mulher, apenas sei talvez o que concebo e idealizo e que nem sempre se viabiliza com a realidade. Conheço outros amores, outras afeições, outras paixões. Sim, fazem diferença.
Da arte sigo fios de vida ficcionais. Quer em filas de letras que se sucedem quer em imagens , alimento-me dessas vidas, tentando talvez transportar para a minha as lições que me são compreensíveis. Somos vampiros, todos os que se deixam seduzir pelas artes das artes são vampiros sedentos de uma nova vida, de uma nova perspectiva, de uma nova esperança. Incorpora-se dentro de nós a busca e não se perde o fascínio pela demanda. Sim, faz diferença.

quinta-feira, setembro 29, 2005

Será esta a ligação?

Na sua demanda pelo mar Mediterrâneo, Ulisses aportou na ilha da Sicília, habitada por um ciclope, tendo-o cegado, impedindo-o assim de perseguir as suas vítimas.
Cecília, nome próprio, significa cego.
Será esta a ligação?

Sabiam que?

A família Von Trapp, imortalizada em Música no Coração, existe mesmo?
É verdade, existiu. E o filme que todos nós conhecemos não é sequer a primeira adaptação da história desta família. A primeira adaptação foi um filme alemão, tendo sido produzido depois um espectáculo na Broadway, que esteve em cena vários anos, e só depois foi realizada a versão cinematográfica protagonizada por Julie Andrews e Christopher Plummer.
Factos reais da história: Von Trapp era oficial austríaco, casado em segundas núpcias com Maria – de quem viria a ter três crianças, o casal e a sua prole fugiu da Austria aquando da ocupação nazi e emigrou para os EUA, onde sobreviveram como grupo coral familiar. Ou seja, os acontecimentos retratados no filme aconteceram sim, mas, como qualquer produção holywoodesca destinada a grandes públicos, foi bastante adocicada.
Se quiserem saber mais pormenores, estejam com atenção ao Biography Channel.
Ah, mais uma coisa, o verdadeiro Von Trapp não é nada parecido com o charmoso Christopher Plummer.

terça-feira, setembro 27, 2005

Uma volta como um cão no fundo do cesto

Em um ano a vida dá tantas, tantas voltas. Os nossos sonhos podem até tornar-se pesadelos. Por isso costumo dizer: para quê complicar a vida, se ela própria já é complicada q.b.
Fiquei triste este fim-de-semana com as novidades da P. E eu sem saber de nada e sem sequer poder confortá-la. Mas ela e o C. são fortes e a vida vai compor-se, compõe-se sempre. E eles têm uma boa razão para lutar…

P.S. Vou tentar estar mais próxima, quanto mais não seja para o desabafo.

Desabafos do meu pai…

Só há duas coisas que ainda gostava de ver e fazer antes de morrer: uma é ver a miúda casada e a outra é acabar de arranjar a casa. Só me falta acabar as obras da casa e, bem ou mal, gostava de a ver casada e amparada.

O que não disse…
Bem ou mal? Eu compreendo a tua expressão, mas para me veres mal casada mais vale não veres, não é? Sei que a intenção é boa. Casada, poderás ter a sensação que podes morrer e que eu não vou ficar desamparada. Mas não há nenhuma garantia. Se tiveres de me ver casada, verás. Bem ou mal, isso também é verdade. Mas não estou, nem ficarei desamparada se isso acontecer.
É verdade que não há esse alguém que também eu gostaria de ter na minha vida, mas há muita gente na minha vida em quem me posso apoiar e confortar. Tenho os teus filhos e netos, e sabes bem como os miúdos nos dão ânimo nos piores momentos. E tenho os meus amigos, sim aqueles que tu vês vezes nos meus aniversários não são só amigos para as festas, são para os momentos difíceis também. Não te preocupes, de uma maneira ou de outra, as coisas hão-de se compor. Tu e a mãe ensinaram muito e eu hei-de seguir a minha vida e a qualquer momento sei com quem posso contar.
Sei que apesar de não o demonstrares te preocupas, por isso espero que a tua preocupação não passe da uma natural apreensão, pois foi sempre esse o meu objectivo. Voar com as asas que vocês me deram e o voo está ensaiado. Não vou cair tão facilmente assim.

sexta-feira, setembro 23, 2005

Vou Vindimar

De escrita

- É na escrita, naquilo que ela nos devolve de nós como aprendizes da vida, leitores em crescimento, que descobrimos os escritores e as verdadeiras referências.
- O escritor vale pelos seus livros, é na escrita que ele é excepção e se imortaliza.
- … nem todos os critérios são por vezes os mais justos, mas sim os mais “adequados”.
Marta Lança

- … escrever é uma experiência, não é uma carreira.
Lídia Jorge

- É preciso sentir que não é fácil escrever – como não é, de resto, fácil viver.
A. Bessa-Luís

- … não se é escritor, está-se escritor … nem sempre somos nós quem escolhe escrever um livro. Muitas vezes é ele quem toma conta de nós.
J. E. Agualusa

- Todas as pessoas são diferentes, reduzi-las às suas características comuns é sempre reduzi-las.
- No momento da escrita, acredito na procura sincera de uma pureza absoluta.
J. L. Peixoto

- Se falamos de literatura a única coisa que importa são os livros, só os livros, apenas os livros. Os bons livros resistem aos seus autores, aos leitores de diferentes gerações, às editoras que aparecem, desaparecem, aos agentes literários, etc.
- O que é um bom leitor? É um leitor que já leu muitos livros bons.
- Um escritor corajoso escreve sem pensar em ninguém. Se possível deverá mesmo, no limite, contrariar as suas próprias expectativas. Depois de o livro estar escrito, qualquer escritor gosta de ser lido.
G. M. Tavares

- … um livro é um serviço prestado aos outros.
M. S. Tavares

quinta-feira, setembro 22, 2005

Não sei olhar o céu, desconforta-me
Sei somente
Olhar a folha
Onde leio, onde escrevo
O meu mundo é este
Inscrito em páginas
Não sei nada do mundo de for a
Esse que dizem natural
Vivo de artifícios
Equívocos linguísticos
Céu nuvens árvores ?
Apenas palavras letras sons
Nem sequer ditos ao vento
Apenas retidos aqui
neste momento
não sei erguer os olhos
o horizonte amedronta-me
aqui estou segura
aqui sou segura.

Mesmo que queira erguer
Este imã a que chamo folha
Impele-me para baixo
Para os meus infernos
Para remoe-los, tentar compreende-los
O céu não traz o inferno
Promete o divino
Eu não quero promessas
Não quero possíveis infinitos
Só tenho o concreto aqui e agora
Esta folha que me recebe
Uma vez mais prende-me
O grilho protege do voo
Da queda da precipitação
Aqui fico aqui não caio
Permaneço inerte
Quieta muda despercebida
Do mundo, sem receio
Aqui fico bem
Quente protegida confortável
Uteramente bem.

Campeonato Nacional de Futebol

Ainda agora começou e já estou farta do campeonato nacional de futebol. E ainda dizem que o sexo masculino não gosta de novelas. Pois.
- Cerca de nove meses de duração
- Capítulos diários
- Enredos que não lembram a ninguém
- bons, maus, assim-assim
- Discretos, exibicionistas
- Ricos, menos ricos, remediados
- Intrigas e escândalos
Haja paciência para mais uma época.

quarta-feira, setembro 21, 2005

Outono Na Sertã, L. Ralha

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- Não estava ainda à beira da loucura, mas já vivera momentos de maior estabilidade mental.
- (...) o teorema de Marques, segundo o qual o tempo que uma mulher demora a preparar-se corresponde à multiplicação de um factor entre 1,7 e 2,5 do número de minutos que anunciou.
- Foi a noite mais longa de todas as noites que lhes aconteceram.
- Conhecimentos inúteis seriam certamente os ossos da omnisciência.

Rapex

É um método desenvolvido por uma médica sul-africana com o objectivo – último – de prevenir violações. Em que é que consiste? É uma espécie de preservativo feminino cujo interior é guarnecido de pequenos espinhos que se prendem ao pénis, impossibilitando ao homem a continuação do acto sexual e que permanece “colado” ao mesmo quando este já não se encontra na vagina. Se esta é uma iniciativa louvável, há, no entanto, umas questões que tornam este método polémico.
1º não evita a violação. Só ao haver penetração é que o Rapex se “cola” ao pénis, logo não previne o acto. O que possibilita é a captura e posterior punição do perpetrador através de análises de DNA. Uma vez que só é possível a retirada do Rapex através de uma pequena cirurgia, o culpado terá sempre de se dirigir ao médico.
2ª muitos especialistas prevêem que a utilização do Rapex tenha uma consequência ainda mais violenta: um aumento do número de assassínio das vitimas. O violador ao ver frustrada a sua “façanha” poderá querer vingar-se da sua vítima através da violência física e provocar um maior número de mortes.
3º os homens podem ser vítimas da sua utilização indevida. Pode haver mulheres que utilizem o Rapex como uma ratoeira num acto perfeitamente normal de sexo consentido. Podem assim vingar-se dos seus companheiros ou exercer algum tipo de chantagem sobre eles, acusando-os de violação quando esta de facto não aconteceu.
4º para além da violência sexual e física inerente à utilização do Rapex existem ainda a violência psicológica. Ou seja, a mulher para o utilizar é porque acha que poderá ser violada. Já de si uma imensa crueldade.

terça-feira, setembro 20, 2005

Nana Caymmi

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É uma das mais belas vozes do mundo. Descubram-na...

Resposta ao Tempo
Batidas na porta da frente é o tempo
Eu bebo um pouquinho pra ter argumento
Mas fico sem jeito, calado, ele ri
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar e eu não sei
Um dia azul de verão, sinto o vento
Há folhas no meu coração é o tempo
Recordo um amor que perdi, ele ri
Diz que somos iguais, seu eu notei
Pois não sabe ficar e eu também não sei
E gira em volta de mim, sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro sozinhos
Respondo que ele aprisiona, eu liberto
Que ele adormece as paixões, eu desperto
E o tempo se rói com inve.........ja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor pra tentar reviver
No fundo é uma eterna criança que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder me esquecer
No fundo é uma eterna criança que não soube amadurecer

Pelos cemitérios...

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Ao contrário do que se pensa, deambular por um cemitério não é nem mórbido nem terrível: é apenas deambular por um cemitério, como se deambula por um biblioteca e se observa capas e capas de livros com títulos cujo enredo desconhecemos. Campas com nomes e datas que não nos não qualquer informação sobre as pessoas que viveram aquelas vidas. São apenas vidas cuja última página foi encerrada naquele espaço. São apenas repositórios de experiências inutilizadas pela inacessibilidade.
Resta-nos observar o que fica à superfície. A dedicação ou não de quem fica a um espaço que apenas significa dor ou indiferença. São flores velhas e ressequidas nas campas. A maioria de plástico como se a perenidade do material mostrasse aos demais que o sentimento é mais ou menos sincero, mais ou menos verdadeiro, porque tem sempre um testemunho presente. Os entes queridos não vão ao cemitério por amor à pessoa que lá está. Vão por obrigação social. Porque um cemitério é apenas a recordação de que a viagem empreendida não tem regresso. O amor está no recordar constante dos sorrisos e das palavras a cada momento e em qualquer local. Esse amor de doçura e melancolia não necessita de idas regulares ao cemitério. Essa ideia de que na morte se pode ainda mostrar o significado das pessoas. As pessoas que importam continuam a ter significado, mas aqui, aqui no nosso coração e na nossa mente. É aí que continuam a viver todos os dias.
Deambular por um cemitério pode, no entanto, ser curioso. Observar os nomes diversos que se parecem cruzar e que tentamos conciliar na nossa mentes com árvores genealógicas improváveis, ou não tão improváveis assim. Encontrar em jazigos e mausoléus constatações de outras crenças. Observar homenagens singelas e sentidas e amiúde palavras ocas. Ver os reflexos da história, das histórias. Não, deambular por um cemitério não é mórbido é uma viagem de aprendizagem.
E podem não ter reparado, mas é dos poucos sítios onde ainda se ouve os pássaros a cantar.

sábado, setembro 17, 2005

Sim, eu sei...

Sim, eu sei... Ainda falta algum tempo para o Natal, e para o meu aniversário então nem se fala, mas apetece-me algo novo. Se alguém quiser abrir os cordões à bolsa está à vontade, estão aqui várias sugestões.

Inveja, Zuenir Ventura,
Jerusalém, Gonçalo M. Tavares
Jardim das Delícias, João Aguiar
A Dama e o Unicórnio, Tracy Chavalier
Os Melhores Momentos de Os Normais, Fernanda Young e Alexandre Machado,
A Casa Quieta, Rodrigo Guedes de Carvalho,
Crónica Feminina, Inês Pedrosa
Splaaash, Francisco Salgueiro
Longe de Manaus, Francisco José Viegas
E se Amanhã o Medo, Ondjaki
Pensatempos : Textos de Opinião, Mia Couto
O Canto da Sereia : Um Noir Baiano, Nelson Motta
O Livro dos Seres Imaginários, Jorge Luís Borges
Fronteiras perdidas, José Eduardo Agualusa
Encontros de Amor Num País em Guerra, Luís Sepúlveda
Budapeste, Chico Buarque
31 Canções, Nick Hornby
Breve História de Quase tudo, Bill Bryson

quinta-feira, setembro 15, 2005

Cruzeiro Seixas

Leva este cântaro,
Enche-o de água
Salgada,
Traz para este lago
Todo o tamanho do céu.

Leva, enche
E traz
Os olhos secos,
Com água pura
Escorrendo no musgo
Até formar um mar.

Leva este cântaro,
enche-o,
traz água
até submergir
esta paisagem.

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As Parcas deixaram de tecer

Nunca se sabe quando o fio da vida se rompe e deixa cair um corpo no vazio. Nunca se sabe quando o embate com a morte se dará. Muitas vezes ocorre cedo demais. De um modo demasiado cruel. Demasiado triste.
Ninguém esperava esta reviravolta do destino.
Em nós, fica um estranhamento e sempre, sempre a sensação de impotência. O que pensar, o que sentir, o que esperar.
Apenas palavras de apoio, apenas um ombro consolador, apenas um abraço. É tudo o que nos resta. É tudo o que nos é possível a quem fica.
Que a eternidade seja pacifica…

É sempre triste receber a notícia da morte de alguém com quem, apesar de não haver grande intimidade, se partilhou e testemunhou alguns momentos importantes.
No sábado, recebi uma destas notícias. Fiquei sem palavras e custou a assimilar. Porque às vezes vamos permitindo que se intercalem meses entre encontros, entre amizades. Depois, as notícias caem que nem uma bomba. Hoje, terça-feira, foi o dia da despedida. Um dia estranho, cansativo emocionalmente.
Como disse, não tinha uma relação muito profunda com o H., mas conhecia-o já há alguns anos. Namorou e casou com uma colega de trabalho e amiga. A última vez que o vi foi no seu casamento no Verão passado. Estava feliz. Revi as fotografias desse dia. Vistas agora parecem tão irreais, tão distantes no tempo e no espaço. Entretanto, estive já com a C., mas não com ele. Na minha cabeça parece que há somente esses dois momentos tão antípodas. A felicidade do dia do casamento e a tristeza do dia de hoje. Parece que entrei numa outra dimensão e dei um salto no tempo. É tão estranho…
H. que a tua alma encontre o descanso que merece…

quarta-feira, setembro 14, 2005

Your Blog Should Be Yellow

You're a cheerful, upbeat blogger who tends to make everyone laugh.
You are a great storyteller, and the first to post the latest funny link.
You're also friendly and welcoming to everyone who comments on your blog.

De Adolecentis

Um dos mais belos e interessantes textos sobre a adolescência:

O único mistério da vida é a adolescência. O nascimento é apenas um acontecimento, fácil de constatar e documentar, a morte, devido `qa ausência de consequências, é um não-acontecimento. A ideia de morte produz imensos efeitos, mas a morte, na realidade, não existe. Tem falta de um depois documentável, a velhice, sendo talvez uma coisa boa, é o que é. A idade adulta também. Isto é: também é velhice.
A infância, do ponto de vista do próprio, não é nada, porque o próprio não tem ponto de vista próprio. A infância são as mães. Uma coisa extraordinária mas que não chega a ser um assunto, porque é sempre bastante mais. A infância também serve às vezes para ser depois inventada.
A adolescência é o único mistério. Um rapaz já é um homem, mas ainda não sabe bem o que é, e isso é susceptível de gerar inúmeros equívocos, que por vezes viram contra o próprio ou contra os que o rodeiam. A violência adolescente aparece como uma espécie de cena de pancada em que o agressor e vítima são a mesma pessoa, se é que se lhe deve chamar pessoa. A adolescência é uma forma de fome. A comida disponibilizada pelos mais velhos não presta, e os adolescentes comem a sua própria carne, que por vezes se torna venenosa.
A melhor alternativa à violência são os espelhos, mas estes nem sempre funcionam do modo mais desejável. A descoberta do espelho é a maior descoberta da história da humanidade de cada homem. O rapaz passa a poder ser um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, uma legião de imagens de homens capazes de arrumar e usar o mundo à medida das suas vontades, fantasias e prazeres. Nos melhores casos, o sortilégio dos espelhos inspira imagens de sucesso, que são também uma promessa de sexo.
Mas é preciso ter muito cuidado com os espelhos, porque nunca se sabe exactamente qual a imagem que eles nos vão devolver. Uma descoincidência radical pode gerar uma decepção com consequências catastróficas.

… nunca saberemos nada sobre ninguém em estado de adolescência.


Alexandre Melo, in Actual