sexta-feira, março 26, 2004

Bem-vindos à Selva

Sexta-feira à noite é um óptimo dia para uma ida ao cinema com os amigos, especialmente se o filme em questão for bom para as gargalhadas.
Bem-vindos à Selva é um desses filmes.
The Rock é um cobrador de cobranças difíceis cujo último trabalho (é sempre o último, meu deus) consiste em encontrar Sean William Scott, o filho de um “mafioso” armado em arqueólogo que algures na selva amazónica se meteu com um mafioso/ditador pior que o pai, bem se vê. Pelo meio misturam-se ainda uma bela mulher e um grupo de guerrilha cujo objectivo é libertar da “escravidão” os trabalhadores do garimpo do tal mafioso/ditador, interpretado por Christopher Walken, irrepreensível, se bem que sem outros registos de genialidade com que já nos habituou neste tipo de registo.
Rock/Sean são uma dupla que funciona e que alimentam o humor do filme muito bem, e não me enganarei muito se daqui a uns tempos tivermos uma sequela.
A imagem dada do Brasil demonstra o impacto de filmes como a Central do Brasil e Cidade de Deus tiveram no meio cinematográfico norte-americano. Os brasileiros são pobres e vivem numa quase escravidão, sem meios de subsistência.
Agora os defeitos: a continuidade tem algumas falhas, como por exemplo, copos de sumo vazios que se enchem quase por milagre; as falas em português/brasileiro são dobradas, as traduções e o que é dito não coincidem muito.

Geografia

Eu não venho de lado nenhum, mas o mundo inteiro pertence-me.

Hugo de Saint-Victor

quarta-feira, março 17, 2004

Scary Movie 3

As maiores vítimas deste terceiro episódio são Signs, 8 Miles e The Ring. Como é que estes três filmes se fundem é fácil: o reverendo de Signs tem um irmão rapper nas horas vagas que se apaixona por uma jornalista a braços com um sobrinho que vê cassetes com avisos estranhos. Na tradição das anteriores fitas, continua a dar-nos alguns gags hilariantes, muitos óbvios, e que, no entanto, não têm a força dos primeiros dois filmes. Saliento apenas a presença de Charlie Sheen que andou meio desaparecido da ribalta durante uns anos, e pode ter neste filme a oportunidade para outros voos, mais de acordo com as provas dadas na sua juventude.

quinta-feira, março 11, 2004

Os Fantasmas de Pessoa, Manuel Jorge Marmelo

A morte é a curva na estrada, morrer é só não ser visto.
Fernando Pessoa

-… o destino é uma estrada cheia de curvas e contra-curvas.
-… o número de crédulos será tanto maior quanto mais ousada for a mentira.
-A vida deixa de fazer algum sentido se nos abandona a certeza de que alguém vela por nós e cuida para que a maldade do mundo não fique impune.
-Talvez fosse ele, talvez fosse eu. Sucede-me muitas vezes não saber quem sou.
-A mais importante característica das coisas secretas é que elas permaneçam efectivamente em segredo.
-…, não vendo e não sabendo, sequer, que coisa seja a felicidade, aqueles que a escuridão oprime não podem sequer aspirar a ser felizes, conhecendo como conhecem, a angústia do medo e a servidão.
-…, a necessidade de viver tudo de todas as maneiras, inteira e profundamente, como forma de conhecimento da verdade que há dentro de cada homem.
-… a vida é isto: a eterna incerteza.
-Pois bem: a procura da plenitude. A face de todas as coisas e também o seu contrário. A verdade toda e a impossível verdade, a oculta, aquela que jamais alcançaremos.
-Nós estamos na confluência do tempos e do espaço, no sítio onde o mistério último, a palavra perdida, se manifesta.
-Eu não sou um iniciado. Simplesmente sinto-me múltiplo. Sinto crenças que não tenho. Sinto-me viver vidas alheias a mim, incompletamente, como se participasse na vida de todos os homens. Mas não sou um iniciado.
-A mentira é só uma das metades da verdade e só conhecendo a ambas e negando-as depois chegaremos perto de conhecer tudo.
-Porque é que, para ser feliz, é preciso não o saber?
-…, o raciocinador nunca crê que a razão possa ser substancialmente irracional.
-Às vezes não sei se enlouqueço deveras ou se apenas vivo demasiado intensamente a loucura das personagens.

Literatura ou Morte

Literatura ou Morte é uma das mais interessantes colecções literárias que vi nos últimos tempos, e que sigo incondicionalmente.
A colecção é originalmente da responsabilidade de um editora brasileira e em Portugal a edição está a cargo da Asa. A proposta inicial foi contactar autores contemporâneos vivos e desafia-los a escrever um livro em que estivessem obrigatoriamente envolvidos uma morte e um escritor já falecido. Existem já oito livros editados e todos eles muito curiosos, porque é possível sempre ficar a conhecer um pouco da escrita de novos autores vivos (alguns nem sequer sabia da sua existência), um pouco da vida dos já falecidos e também entrar no espírito da sua escrita.
Desde modo recomendo todos os livros:
Adeus Hemingway, Leonardo Padura Fuentes
Os Orangotangos de Borges, Luis Fernando Veríssimo
Os Leopardos de Kafka, Moacyr Scliar
A Morte de Rimbaud, Leandro Konder
Os Fantasmas de Pessoas, Manuel Jorge Marmelo
O Doente Moliére, Rubem Fonseca
Medo de Sade, Bernardo Carvalho
Stevenson Sob as Palmeiras, Alberto Manguel

quarta-feira, março 10, 2004

Pago Para Esquecer

Paycheck – Pago para Esquecer é o novo filme do realizador John Woo, que já nos habituou a filmes de acção de ritmo frenético, tais como Missão: Impossível II e Face Off/Volte Face. John Woo que já dirigiu Tom Cruise em Missão: Impossível II pega numa história de Phillip k. Dick, cujo Relatório Minoritário já tinha sido igualmente produzido e interpretado por Cruise.
Em Paycheck – Pago para Esquecer a temática base de Relatório Minoritário está presente: a evolução da tecnologia atingiu um ponto tal que é possível antever o futuro antes mesmo de este ter acontecido. Se no primeiro caso, se anteviam crimes e procurava-se evita-los através da prisão antecipada dos seus autores, neste segundo caso o futuro é uma incógnita quase até ao final do filme.
Se para evitar uma tragédia futura é necessário aprender com o passado. O que não seria problemático, se o protagonista tivesse conhecimento do seu passado recente. Isto, porque Ben Affleck interpreta um engenheiro informático que vende a propriedade intelectual dos seus trabalhos a quem pagar melhor e uma das contrapartidas dos seus “patrões” é que a sua memória seja apagada, para que o mesmo trabalho não seja vendido a outras empresas. Mas no seu último trabalho algo correu menos bem e após a sua conclusão Affleck vê-se na contigência de descobrir o seu passado. E esta viagem é em tudo semelhante à de Guy Pearce em Memento de Christopher Nolan.
Condimentado com dinâmicas cenas de acção e perseguição e a levantar algumas questões sobre o futuro e o destino da cada um de nós, é um filme que se vê bem numa Sexta-feira feira à noite.

sexta-feira, fevereiro 20, 2004

Stevenson sob as Palmeiras, Alberto Manguel

- acho que as histórias ensinam melhor do que os sermões, ou quase isso. As histórias dão mais o que pensar, porque são menos directas.

- prova apenas que a Palavra sempre haverá de sobreviver à carne.

- A palavra nostalgia (ele havia lido em algum lugar) for a cunhada no século XVII por um estudante alsaciano na sua tese de medicina para se referir à molestia a que sucumbiam os soldados suiços que se viam longe das suas montanhas natives.

- No seu caso, era o contrario: nostalgia era a falta dolorosa que sentia dos lugares que jamais conhecera.

quinta-feira, fevereiro 19, 2004

Reflexão

A vida não é medida pelo número de vezes que respiramos, mas pelos momentos
que nos tiram a respiração.

quarta-feira, fevereiro 18, 2004

Apontamento

ninguém a outro ama
se não que ama
o que de si há nele
ou é suposto

Fernando Pessoa

Geração Rasca

Não é de minha autoria, mas identifico-me com muito orgulho.

"Em conversa com o irmão mais novo de um amigo, cheguei a uma triste
conclusão. A juventude de hoje, na faixa que vai até aos 20 anos, está
perdida.
E está perdida porque não conhece os grandes valores que orientaram os que
hoje rondam os 30.

O grande choque, entre outros nessa conversa, foi quando lhe falei no Tom
Sawyer. "Quem?" , perguntou ele. Quem?! Ele não sabe quem é o Tom Sawyer!?
Meu Deus... Como é que ele consegue viver com ele mesmo? A própria música:
"Tu que andas sempre descalço, Tom Sawyer, junto ao rio a passear, Tom
Sawyer, mil amigos deixarás, aqui e além..." era para ele como o hino
senegalês cantado em mandarim.

Claro que depois dessa surpresa, ocorreu-me que provavelmente ele não
conhece outros ícones da juventude de outrora:
* O D'Artacão, esse herói canídeo, que estava apaixonado por uma
caniche;
* Sebastien et le Soleil, combatendo os terríveis Olmecs; Galáctica,
que acalentava os sonhos dos jovens, com as suas naves triangulares;
* O Automan, com o seu Lamborghini que dava curvas a noventa graus;
* O mítico Homem da Atlântida, com o Patrick Duffy e as suas
membranas no meio dos dedos;
* A Super-Mulher, heroína que nos prendia à televisão só para a ver
mudar de roupa (era às voltas, lembram-se?);
* O Barco do Amor, que apesar de agora reposto na Sic Radical, não é
a mesma coisa. Naquela altura era actual...;
E para acabar a lista, a mais clássica de todas as séries, e que marcou
mais gente numa só geração:
* O Verão Azul. Quem não chorou com a morte do velho Shanquete, não
merece o ar que respira. Quem, meu Deus, não sabe assobiar a música do
genérico, não anda cá a fazer nada.

Depois há toda uma série de situações pelas quais estes jovens não
passaram, o que os torna fracos. Ele nunca subiu a uma árvore! E pior, nunca
caiu de uma. É um mole. Ele não viveu a sua infância a sonhar que um dia ia
ser duplo de cinema. Ele não se transformava num super-herói quando brincava
com os amigos. Ele não fazia guerras de cartuchos, com os canudos que
roubávamos nas obras e que depois personalizávamos. Aliás, para ele é
inconcebível que se vá a uma obra. Ele nunca roubou chocolates no
Pingo-Doce. O Bate-pé para ele é marcar o ritmo de uma canção.

Confesso, senti-me velho...

Esta juventude de hoje está a crescer à frente de um computador.
Tudo bem, por mim estão na boa, mas é que se houver uma situação de perigo
real, em que tenham de fugir de algum sítio ou de alguma catástrofe, eles
vão ficar à toa, à procura do comando da Playstation e a gritar pela Lara
Croft. Óbvio, nunca caíram quando eram mais novos. Nunca fizeram feridas,
nunca andaram a fazer corridas de bicicleta uns contra os outros.
Hoje, se um miúdo cai, está pelo menos dois dias no hospital, a levar pontos
e a fazer exames a possíveis infecções, e depois está dois meses em casa a
fazer tratamento a uma doença que lhe descobriram por ter caído. Doenças com
nomes tipo "Moleculum infanticus", que não existiam antigamente.

No meu tempo, se um gajo dava um malho (muitas vezes chamado de "terno" nem
via se havia sangue, e se houvesse, não era nada que um bocado de terra
espalhada por cima não estancasse.
Eu hoje já nem vejo as mães virem à rua buscar os putos pelas orelhas,
porque eles estavam a jogar à bola com os ténis novos.
Um gajo, na altura, aprendia a viver com o perigo. Havia uma hipótese real
de se entrar na droga, de se engravidar uma miúda com 14 anos, de apanharmos
tétano num prego enferrujado, de se ser raptado quando se apanhava boleia
para ir para a praia. E sabíamos viver com isso.

Não estamos cá? Não somos até a geração que possivelmente atinge objectivos
maiores com menos idade? E ainda nos chamavam geração "rasca"... Nós éramos
mais a geração "à rasca" , isso sim. Sempre à rasca de dinheiro, sempre à
rasca para passar de ano, sempre à rasca para entrar na universidade, sempre
à rasca a ver se a namorada estava grávida, sempre à rasca para tirar a
carta, para o pai emprestar o carro.

Agora não falta nada aos putos.

Eu, para ter um mísero Spectrum 48K, tive que pedir à família toda para se
juntar e para servir de prenda de anos e Natal, tudo junto.

Hoje, ele é Playstation, PC, telemóvel, portátil, Gameboy, tudo. Claro,
pede-se a um chavalo de 14 anos para dar uma volta de bicicleta e ele
pergunta onde é que se mete a moeda, ou quantos bytes de RAM tem aquela
versão da bicicleta.
Com tanta protecção que se quis dar à juventude de hoje, só se conseguiu que
8 em cada dez putos sejam cromos.

Antes, só havia um cromo por turma. Era o tóto de óculos, que levava porrada
de todos, que não podia jogar à bola e que não tinha namoradas. É certo que
depois veio a ser líder de algum partido, ou gerente de alguma empresa de
computadores, mas não curtiu nada. Hoje, se um puto é normal, ou seja, não
tem óculos, nem aparelho nos dentes, as miúdas andam atrás dele, anda de
bicicleta e fica na rua até às dez da noite, os outros são proibidos de se
dar com ele."

sexta-feira, fevereiro 13, 2004

Tirei a minha pele

Há coisas que lemos e nos impelem a nossa imaginação em frente, indagando outras realidades para aquelas palavras, outros sentimentos escondidos em camadas subtis.
E há outras que nos lembram coisas já escritas. Foi o caso desta do Agualusa
que me lembrou outra escrita por mim há algum tempo e diz assim:

Tirei a minha pele
aquela que conheces
e julgas ser eu
despi-a inteiramente.

Tem um aspecto translúcido
Dai o teu engano
Ao julgares conhecer-me
Tão profundamente.

Não, não foi embuste
Apenas má visão.
Translúcido não é transparente,
Nem o será jamais.

Deixei-a primeiro ao Deus dará
Depois, e por respeito,
Por ti e pelo que nela vivi
resolvi arruma-la.

Dobrei cuidadosamente
Juntei cada ponta cada saliência
Ficou bem guardada
na segunda gaveta da cómoda.

Agora, podes pegar nela.
Se e quando quiseres.
Podes até cheirar
Se algum aroma restou.

Só não restei eu
Que saí e agora algures
Visto outra pele.
Outro engano, certamente.
29/01/03

Zumbi final

∑ Ao longo da vida um homem muda de corpo muitas vezes. Estamos sempre a mudar de corpo. Crescemos, engordamos, algumas vezes encolhemos, o cabelo embranquece, perde o vigor e cai. Muita gente acredita que antes de morrermos vemos o filme da nossa própria vida, desenrolando-se vertiginosamente, desde que nascemos até aquele último instante. Se assim fosse o que veriamos seria um ser em permanente mutação, ou seja, alguém com infinitos corpos.
∑ Acho-o bom como um rio. (…) Quero dizer, é uma daquelas pessoas raras, sinceras, que por onde passam deixam tudo mais alegre e exuberante.
∑ A pior das desgraças é trabalhar por necessidade.
∑ Viver é lembrar. Lembrar é sofrer.
∑ Tu sabe, maluco, o homem nasceu lá em África. No princípio só tinha pretos no mundo. Depois alguma coisa deu errado e apareceram os brancos, raça degenerada, de cabelo fraco, com uma pele tão frágil que mal suporta o sol.
∑ Gostaria de se despir do corpo, deixá-lo estendido na cama, vazio e inútil, reaparecendo à sociedade com uma nova pele, um rosto inédito, inteiramente desconhecido. No dia seguinte de manhã, uma das empregadas encontraria a sua pele, uma sombra leve, sedosa, desenhada contra o firme esplendor dos lençóis. Como reagiria? Talvez não estranhasse. Quem sabe, limitar-se-ia a jogar fora o estorvo estranho.
∑ Existe beleza em todas as coisas. O que nem sempre existe são olhos capazes de a ver.
∑ Tudo o que sei aprendi nos livros. Durante muitos anos nem vivia, lia. Sou uma pessoa construída na literatura.
∑ Intuição. Curiosa palavra. Vem do latim tardio, com o significado de imagem reflectida por um espelho.
∑ No céu luminoso correm agora densas nuvens negras. A maioria das pessoas olharia com desgosto para as nuvens. O jornalista, contudo, sorri. Impressiona-o a beleza daquele instante. O prodígio de milhões de partículas de água suspensas na atmosfera. Um rio que desliza, escuro, sobre a cidade.
∑ Os pessimista já se suicidaram todos.
∑ pessimismo é um luxo dos povos felizes.
∑ Regressamos sempre aos velhos lugares aonde amámos a vida. E só então compreendemos que não voltaram jamais as coisas que nos foram queridas. O amor é simples, e o tempo devora as coisas simples.
∑ A tristeza é a morte lenta das coisas mais simples.
∑ Resignação é uma espécie de submissão paciente aos sofrimentos da vida.
∑ Amamos sobretudo aquilo que não conhecemos, não achas?
∑ que me atrai numa mulher não são as suas virtudes visíveis, são os seus abismos…
∑ Não podemos mentir aos amigos. Entre amigos não deve haver lugar sequer para mentiras piedosas.
∑ Só se alcança a sabedoria reconhecendo a ignorância.
∑ Qunado uma mulher ri, um homem pode esperar dela alguma misericórdia.
∑ … parece que foi sempre assim desde que Deus criou o mundo, ou desde que o mundo se criou a si próprio, e depois os homens criaram Deus, e que assim há-de ser até ao fim dos tempos.
∑ Há dois tipos de cansaço: o dos vencedores e o dos vencidos.
∑ Um civil pode militarizar-se; um militar é incivilizável.
∑ Na estrada da vida, passado é contramão.
∑ Talvez chore se abrir os olhos, e não consiga mais impedir a torrente de lágrimas, e assim se transforme em rio, e deságue no mar.
∑ A tua pele tem um cheiro estranho. Cheira a sonhos.
∑ Há batalhas que não adianta ganhar e outras que vale a pena perder.
∑ vento não quebra os ramos que sabem se curvar.
∑ Certos erros podem ser mais belos do que a vida.
∑ La vida es muy bonita pero al fin siempre se acaba.
∑ Não há finais felizes, mas há finais que anunciam tempos melhores.

José Eduardo Agualusa, in O Ano em que Zumbi tomou o rio

Portugal S.A.

Onde tudo se compra e tudo se vende

Sempre disse, e torno a dizer: tudo na vida tem um preço. Há é pessoas que se vendem por um preço muito baixo e nem tudo se compra com dinheiro. O poder ou a fama são por vezes pagamentos mais aliciantes e sedutores que o dinheiro.
No caso de Portugal S.A., dinheiro e poder andam lado a lado, mas sendo o dinheiro apenas uma face visível do poder. O poder dos grupos económicos, o poder político e o poder de bastidores misturam-se provocando uma luta quase titânica.
Os ingredientes são um grande empresário nacional obrigado na década de setenta a exilar-se para o Brasil e a perder grande parte do seu património para as nacionalizações, o seu braço direito com ligações de amizade no governo, o ministro das finanças que põe toda a sua confiança no empresário e é traído, e a grande paixão do braço direito disposta a tudo para salvar o bom nome da empresa do pai. Pelo meio andam ainda uma esposa viciada em drogas e traidora, um padre que através da sua influência vai manipulando os vários peões, uma jornalista cujos escrúpulos deixam muito a desejar.
O argumento é consistente e dinâmico, apesar de dois ou três clichés, e realização é segura. As interpretações, sem serem excepcionais, são boas. Tirando a senhora Cristina Câmara, que eu ainda não percebi porque é que continua a ser chamada, única e exclusivamente, para os filmes produzidos pelo senhor Tino Navarro. A rapariga até é jeitosa, mas… Ou serão outro tipo de relações que a fazem ser cabeça de elenco? Eu não sou de intrigas…

segunda-feira, fevereiro 09, 2004

4ª Feira de Cinzas, Ethan Hawke

- É fácil gostar de estranhos, mas é difícil gostar das pessoas que conhecemos melhor.
- Agora se alguém me pergunta se acredito em Deus, abano a cabeça como se não ligasse patavina, mas a verdade verdadinha é que acredito. Só não sei o que fazer com isso.
- As pessoas estão sempre a dizer o quanto amam alguém, ou de quão significativo é o amor, sabes? Mas o que é que elas estão dispostas a fazer por isso?
- As pessoas nem se apercebem, mas é entre aqueles pequenos tiquetaques dos ponteiros dos segundos que, bem ou mal, se desenrola toda a nossa vida.
- Graça: capacidade de aceitar a mudança.
- De vez em quando conhecemos um ser humano que pode, muito bem, ser uma surpresa.
- A verdade não necessita que nós a protejamos, basta vivermos dentro dela e ela proteger-nos-á, não é verdade?
- Não há segredos, apenas coisas que as pessoas fingem não saber.
- Há um tipo específico de insatisfação. Há um vazio dentro de nós que não pode ser preenchido. Esse vazio é a nossa necessidade de Deus. É preciso procura-Lo e permanecer com esse desejo.
- É por isso que as pessoas têm crenças. Elas fecham as coisas bem no fundo da sua mente e constroem uma espécie de vedação e decidem aquilo em que devem acreditar, mas isso não significa que a vedação seja real.
- E essa razão é: não fazemos a mínima ideia daquilo que é realmente bom para nós.
- O céu está sempre presente aqui na terra. Já temos tudo aquilo que precisamos. A expectativa é que mata tudo.
- Ao longo de todos estes anos andei a gastar tempo e energia à procura de um lar - para finalmente perceber que o meu lar era simplesmente estar perto da minha própria capacidade de amar.
- Amar alguém é tão doloroso e decepcionante como conhecernos a nós próprios. É provavelmente a única coisa que vale mesmo a pena fazer, mas isso não quer dizer que seja uma viagem suave e perfeita.
- Há algo que me liberta quando um pneu fura, um combóio fica retido, quando o tempo provoca atrasos no aeroporto ou sempre que o mundo deixa de girar no sentido em que se supõe que ele gire.
- É exaustivo ser-se adulto, ter consciência das oportunidades perdidas.
- É preciso expirar para inspirar.
- Durante um curto período de tempo podemos fazer de conta que não conhecemos a verdade. É como estarmos a suster a respiração. Mais tarde ou mais cedo temos de voltar a respirar. Quanto mais fundo se enterra uma mentira, maior será a pressão quando esta explode.

sábado, fevereiro 07, 2004

Negócio Arriscado

Este é o nome do filme em português, em inglês chama-se Along Came Polly.
Ora bem, se seguir o título nacional só perguntamos onde é que no filme o romance é arriscado. Não é. E o que é que a Polly tem de especial? Nada.
Ok. O protagonista é um analista se seguros, que planeia a sua vida só pelo que é seguro. O que não o impede de ter surpresas desagradáveis pelo caminho, como ser traído pela quase angélica esposa no primeiro dia de lua-de-mel. E para compensar o que faz? Resolve apaixonar-se pela ex-colega de liceu que segue a vida pelo plano do não-plano. Ou seja, água e azeite.
Ok. Ideia engraçada. Original? Não, e muito mais bem explorada em muitos outros filmes. Até demais para os mencionar.
Personagens engraçadas? Apenas q.b.
Bons actores? Sim. Com especial destaque para os secundários Phillip Seymor Hofman e Brian Brown. Boas interpretações? Não. Aliás, seria impossível porque os papéis são tão medianos que até dá pena ver tão bons actores, fazer algo que nem lhes dá oportunidade de brilhar.
Ok. Não deixa de ser um filme jeitoso para sexta-feira à noite, mas é só isso. Algumas gargalhadas à base de humor escatológicos, personagens já vistas (todas elas), história já vista. Depois disto, por favor, outros filmes para os mesmo actores.

Mil Folhas

Porque viver na terra é sangrar sem conhecer.
Hilda Hilst

 Ela vale muito mais do que escreveu na esperança de chamar a atenção para o que vale.
 …- a todas as biografias parece faltar o centro. A capacidade para dar um sentido é uma virtude privada. Os outros só podem imaginar sentidos gerais a partir de factos.
 Infância – o tempo em que se julga que se pode conhecer.
 Um dia a inocência passa como a maioria das doenças.
 …, e ao que vem depois, quando depois não vem mais nada -…
 … a ideia de que o passado desenha os acontecimentos do futuro que estão a desenhar-se no presente.
Teresa Coelho

 Qualquer escritor numa missão é um escritor a evitar. A ideia é contar uma boa história, e não mudar a cabeça das pessoas.
 Para identificar emoções, ele faz uma busca na sua memória até encontrar um exemplo concreto.
Mark Haddon

God is now here.
God is nowhere.
Douglas Coupland

quinta-feira, fevereiro 05, 2004

Na Mira do Jô

Quem sabe, sabe. Quem sabe fazer humor, faz em qualquer tipo de meio: televisão, cinema, rádio e em palco. E Jô Soares provou a quem foi ao CCB o porquê do seu sucesso nesta área.
Foram duas horas de espectáculo, sozinho em palco, coadjuvado somente por uma cadeira, um balde de lixo e uns holofotes, sem que qualquer momento fosse perdido em piadas menores. Algumas já conhecidas? Talvez, mas o que interessa em comédia não é exactamente o que se conta, é como se conta. E Jô Soares é um exímio contador de histórias. Qualidade já comprovada em outras áreas, como na literatura. (Conselho: ler ou ver a adaptação cinematográfica de O Xangô de Baker Street, ou seja, Sherlock Holmes como nunca o imaginamos).
Um palco demasiado grande para uma só pessoa, apesar do seu respeitoso porte? Não. Nem por sombras.
Como qualquer comediante de stand-up, muito em voga e com humildes aprendizes/fazedores na plateia, Jô pegou em várias situações conhecidas de todos nós como: a tentação de Adão e Eva, uma ida ao supermercado, a gravidez, o momento …da-se, a utilização da linguagem, etc; e deu-lhes um cunho muito pessoal. Com um humor acessível, sem deixar de ser inteligente, as gargalhadas de um público participante foram bem genuínas. E que dizer da sensibilidade do artista, quando as piadas, sobretudo as políticas, são tão bem adaptadas à realidade nacional.
Eu diverti-me e muito.
A quem perdeu o Jô a fazer de anão, digo somente LOLOLOL.

Reflexão

Se as coisas são feitas para serem usadas e as pessoas para serem amadas, então por amamos as coisas e usamos as pessoas?

sexta-feira, janeiro 30, 2004

O Ano Em Que Zumbi tomou o rio, Agualusa...

- Sabias que as palavras monstro, montra e o verbo mostrar, têm todas a mesma origem? Os monstros exercem a sua monstruosidade mostrando-se, exibindo-se nas montras. Os monstros servem ao estimado público como termo de comparação.
- O fumo, naquele espaço, parecia capturar e tornar ainda mais amargo o lume do crepúsculo.
- Lembro-me sempre do que dizia o meu avô: bate na tua mulher todos os dias. Tu podes não saber porque bates, mas ela há-de saber porque está a apanhar.
- o mito dos dragões era um fenómeno universal, ligado à passagem dos dinossaúrios pela terra: "Os mitos não são outra coisa senão a memória degenerada, corrompida pelo passar dos séculos, de acontecimentos muito antigos."
- "A lenda dos vampiros talvez tenha surgido na sequência de uma epidemia de raiva. Os doentes com raiva sofrem de fotofobia, evitam a luz, escondem-se na sombra. Além disso atacam de repente, mordem, e dessa forma transmitem o mal."
- Numa pesquisa realizada nos anos setenta, em todo o território brasileiro, pediu-se aos entrevistados para se definirem em termos de raça. As pessoas responderam com um total de cento e trinta e seis definições diferentes.
- (o riso dela parece água a bater na água).
- Os nomes resumem a essência das coisas.
- A elegância começa na palavra. É preciso saber falar para saber pensar.
- As pessoas pequenas, (…), são normalmente pacíficas. A violência, afinal, é um recurso dos fortes. Os anões alcançaram grande poder em algumas cortes europeias, na função de bobos, porque os monarcas não os temiam. Era improvável que um anão, um bobo, tentasse um regicídio. As pessoas pequenas desenvolvem a argúcia, tornam-se por força das circunstâncias capazes de dissimular ideias e sentimentos, adquirem por vezes talentos de camaleão e mesmo o dom excepcional da invisibilidade.
- Os governos totalitários receiam o riso tanto quanto aos vampiros horroriza a luz do Sol.
- (…) é sujando os pés, enfiando os pés na lama, que uma criança aprende a amar o seu país.
- As aranhas não comem as presas – bebem-nas. Elas injectam no corpo das vítimas um veneno paralisante. Produzem também enzimas capazes de liquefazer por completo os órgãos internos dos insectos que caem nas suas teias. Os fluidos resultantes são sugados e digeridos depois por um estômago poderoso. (…) Insectos têm seis patas. As aranhas possuem oito para e são aracnídeos, como os ácaros e os escorpiões.
- ... mas ninguém nos ensina a esquecer. Como alguém faz para esquecer? (…) nunca se esquecem as lições aprendidas na dor.

Since you went away.
The days grow long,
And soon I?ll hear old winter’s song.
But I miss you mus of all, my darling, When autumn leaves start to fall.

Nat King Cole

quarta-feira, janeiro 28, 2004