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quarta-feira, março 02, 2005

Supermacia

Há cerca de 2,3 anos fui ao cinema, numa daquelas idas desportivas de ver o que calhasse, e vi o “Identidade Desconhecida – The Bourne Identity”. Não sendo um filme extraordinário, é um filme muito bem feito, com boas prestações, bons pormenores técnicos, uma edição dinâmica e um argumento sem grandes falhas.
Agora vi o “Supermacia – The Bourne Supremacy”. Comparando com o primeiro, não fica nem atrás, nem à frente. As interpretações são boas, pormenores engraçados de edição, mas relativamente ao argumento já deixa algo a desejar. Se no primeiro pouco ou nada de sabia de Jason Bourne, neste vão se sabendo mais pormenores do seu passado, o que dá mais oportunidades a que surjam incoerências. Com estes novos pormenores criou-se foi a oportunidade de uma nova aventura de Jason Bourne em busca da sua identidade. Por isso não se admirem de daqui a pouco surgir, sei lá, “The Bourne Rising” ou “the Bourne truth”, etc.

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Gothika


É um filme de suspense falhado de tão previsível a sua sequência e conclusão. Ao abordar temas como pedofilia, abuso, violação e snuf movies, este último um território não muito explorado ainda no cinema comercial, apenas retiramos de bom o excelente desempenho de Halle Berry. É pena o argumento não ser mais coerente, este entra inclusive em contra-senso com a mensagem do filme.
“Não podemos confiar em alguém que nos considera loucos” é o slogan do filme e vemos a protagonista a ver espíritos/fantasmas, mas depois a conclusão é tão terrena, como se não houvesse sobrenatural.

sábado, janeiro 22, 2005

O Quinteto da Morte


Uma vez mais os irmãos Cohen demonstram o seu fascínio pelo sul norte-americano e as suas contradições: o sotaque, a simpatia, a coscuvilhice, o racismo. A isto mistura-se um pouco de Edgar Allen Poe: a sua ironia, a sua busca pelo crime perfeito, que se faz a partir de dentro e não deixa pistas, a justiça poética. Depois, junta-se um grupo de caricatas personagens lideradas por um excelente Tom Hanks, num impecável trabalho de composição. O resultado? Mais uma hilariante demonstração do trabalho dos irmãos Cohen, na linha do “Irmão, onde Estás?”

sábado, janeiro 15, 2005

Era uma Vez… Um Pai


Mais uma vez, Kevin Smith volta a juntar o seu gang para uma incursão cinematográfica. Desta feita, oferece-nos uma história mais tradicional, dentro dos cânones da comédia romântica, mas sem deixar de nos brindar com algumas pérolas do seu habitual humor cáustico.
No que diz respeito ao enredo propriamente dito, este fica muito aquém de outros Kevin Smiths. Um jovem publicitário de sucesso (Ben Affleck – e quem mais poderia ser?) vê a sua fulgurante carreira acabar de um momento para o outro após a morte da sua esposa ao dar à luz. Deste modo, vê-se obrigado a voltar à sua terra natal, New Jersey (o título original é Jersey Girl), e a voltar a viver com pai, que o ajudará a criar o rebento. Passados sete anos, vê-se confrontado com a escolha entre voltar à sua carreira de publicitário ou aceitar a vida simples que tem, mas de grande amor e cumplicidade familiar. Em linhas gerais, esta é a história e não se vislumbra nela grandes rasgos de originalidade, como, por exemplo, em Dogma, para mim o mais bem conseguido filme deste realizador.
Mas, mesmo assim, reconhecemos a sua criatividade em alguns diálogos absolutamente deliciosos, principalmente entre a personagem de Affleck e de Liv Taylor, uma empregada de clube de vídeo que despertará nele alguns sentimentos mais libidinosos e não só. Bem como a cena de participação dos membros do gang Jason Lee e Matt Damon, numa hilariante entrevista de emprego, e um diálogo com Will Smith.
No seu todo, é apenas razoável, salvando-se alguns excertos muito bem conseguidos. É o que dá Kevin Smith ter elevado a fasquia e agora não a ter conseguido superar. Seja como for, esperamos por mais.

XXX – Missão Radical


Desportos radicais e espionagem são o mote para este filme protagonizado por Vin Diesel, que de futuro muito dificilmente se desvinculará do cinema de acção. Sobretudo porque o seu físico a sua dicção, digamos monocórdica, não parecem muito adaptáveis a outros géneros.
Em termos de enredo, temos Xander (Diesel), um praticante de desportos radicais com algumas contravenções às costas que se vê obrigado por um agente do governo americano (Samuel L. Jackson) a participar numa missão de espionagem no Leste europeu. E lá vemos o nosso herói a rumar para terras geladas, a entrar no covil de uma máfia russa, a envolver-se com uma bela agente infiltrada (Ásia Argento), e a salvar o mundo de uma contaminação víral. Tudo coisas normais na vida de um herói.
É um filme de puro entretenimento, sem grandes novidades, na tradição de 007.

sexta-feira, janeiro 14, 2005

Amores Possíveis


Mais um resultado do recente cinema brasileiro, este filme conta-nos uma história, como o título indica, de amores possíveis. Tudo começa há 15 anos atrás, quando Carlos (Murilo Benicio) espera por Júlia (Carolina Ferraz) à porta do cinema. Volvidos esses anos, a vida pode levar imensos rumos. Talvez ela tenha aparecido, talvez não. Talvez tenham sido felizes, talvez não. 15 anos depois observamos três Carlos e três Júlias em três vidas diferentes, em três amores possíveis.
Para quem se lembra de “instantes Decisivos”, com a Gwyneth Paltrow, a ideia subjacente é semelhante, mas enquanto nesse as duas realidades apresentadas se dirigem para uma mesma resolução, aqui as realidades têm apenas um ponto inicial comum e finais diferentes.
É um interessante exercício sobre como a vida se pode desenrolar em várias direcções sem que qualquer uma delas seja propriamente errada. Apenas há que fazer escolhas e saber viver com elas.

quinta-feira, novembro 04, 2004

Estação das Chuvas, Agualusa


“Quando morreu estava já tão desprovida de existência que foi necessário vestir-lhe as suas roupas mais concretas, perfumar-lhe o corpo todo, pintar-lhe com cores aflitas o cabelo e as unhas das mãos e dos pés para que se tornasse credível que em tempos fora pertença deste mundo.”
“… um profeta, para ser autêntico, precisa apenas de se sentir autêntico.”
“Lídia aceitava o amor de Alberto com alegria mas sem alvoroço.”
“O muito pouco que restou dele morreu dez anos depois.”
“As mulheres assim é sempre de repente que acontecem.”
“aquele nome era uma cicatriz de infância.”
“Não é uma mulher, é um pressentimento.”
“Eu já não acreditava em nada, mas sabia que não tinha o direito de contaminar os outros com a minha descrença.”
“O amor torna as pessoas ridículas. O ódio é um sentimento mais respeitável.”
“Quando o dólar manda até a merda anda.”
“Julgo que foi em Março. É quando o calor coincide com a água e esse excesso de energia transtorna a natureza. As flores ardem de febre e os animais de cio. Os crimes aumentam nos subúrbios.”
“O difícil, depois, era despir à verdade o manto de fantasia.”
“O medo. O verdadeiro medo, deixa-nos exaustos.”
“O heroísmo é apenas uma forma de estupidez, talvez a mais perigosa.”
“Não sou racista, mas também não sou daltónico.”
“Acho que é necessária uma certa inocência para que a maldade se manifeste nas suas formas mais exuberantes. (…) os grandes torturadores são quase sempre homens que não tiveram infância e por isso a exercem mais tarde.(…) só os inocentes são culpados.”
“A poesia era um destino irreparável, naquela época…”
“Não suporto o silêncio das árvores.”
“O exílio é onde em nada nos reconhecemos, o exílio é o silêncio hostil das coisas.”
“O meu avô ensinou-me a ser céptica. Sobretudo, ensinou-me a desconfiar dos iluminados, daqueles que conhecem os destinos do mundo. Dizia-me: “As asas acontecem tanto aos anjos, como aos demónios, como às galinhas. Por precaução, o melhor é tratar a todos como galinhas.”
“já reparaste que os melhores escritores angolanos são brancos ou mestiços, os melhores escritores sul-africanos são bóeres, os melhores escritores do mundo são judeus?
Há urgência naquilo que eles escrevem. Eles sofrem, estão doentes. Escrevem porque precisam de saber quem são.”
“Mais prático do que morrer é nunca ter existido.”Já não sei quem fui, quem sou. Já não sei o quanto de mim é, não a vida, mas aquilo que da vida em algum livro eu.Lidia do Carmo Ferreira

quinta-feira, outubro 07, 2004

Contos Apátridas, VVAA


Um Tradutor Em Paris, B. Atxaga
“Viver é percorrer o tempo, mas percorrê-lo como quem avança por um arame, hoje desequilibrando-se para um lado, amanhã para o outro, e assim ia vivendo eu, sem conhecer o equilíbrio, procurando fugir cada vez mais para me esquecer do vazio que me rodeava e chegar quanto antes, (…) pelo menos a um lugar mais seguro do que o arame: a uma escada, a uma varanda, no fim de uma corda presa em qualquer sítio.”
“soube, graças a ti, que a vida é uma complexa mistura de luzes e sombras, e que essa complexidade é magnifica.”

Nunca lá Estive, J. M. Fajardo “… havia de tudo para remediar as tristezas, o infortúnio ou essa insaciável sede da alma que nem o mais corrosivo dos licores jamais consegue mitigar.”
“Tinha lutado com uma força que nascia do desespero, essa espécie de força que torna brilhante a derrota e admirável o derrotado. Uma força que leva uma vida inteira a conquistar-se.”
“Os pés voltaram a conduzir-me aonde a minha cabeça ainda ignorava que queria ir.”

Tragédia do Homem que amava nos Aeroportos, S. Gambôa “às vezes as histórias tristes acontecem em lugares tristes, como estações de comboios ou em aeroportos. E então as pessoas apercebem-se e comentam-no, e todos dizem que na verdade os aeroportos e as estações de comboio são lugares tristíssimos, tão tristes que não dão vontade de viajar, pois ninguém gosta de mergulhar na tristeza, e muito menos por esses preços.”
“Só se chora se antes se foi feliz. Atrás de cada lágrima esconde-se algo inesquecível.” Graham Greene
“… com o tempo, fui-me apercebendo de que os lugares onde vivemos são impermeáveis aos sonhos, e que não há nada mais disparatado do que a rua e o número onde recebemos o correio, o quarto onde nos levantamos todos os dias e o espelho quotidiano da casa de banho, o mesmo que nos devolve essa cara fatigada que já não nos convence, que nos faz pena e que, desgraçadamente, é a única que jamais nos atraiçoa.”
“Â felicidade está sempre na viagem que se segue. Ou melhor: nesse belo país aonde nunca fomos.”

Antiga Morada, A. Sarabia “É curioso como as velhas casas falam a quem se propõe ouvi-las.”
“Esta confissão alimenta-se mais de sombras do que de luzes, mais de não sei o quê, do que aquilo que compreendo perfeitamente, é natural. O que se conhece não é mais do que um insignificante fragmento da realidade. O desconhecido envolve tudo, tudo é tocado por ele, dá forma e sentido para que os olhos vejam, as mãos toquem, os ouvidos ouçam.”
“Terá sido notada alguma vibração apenas perceptível nessa subtil teia de aranha que envolve os vivos com os mortos?”

O Anjo Vingador, L. Sepúlveda “Nasce-se inocente como um burro, mas basta um leve contacto com a polícia para ficarmos a saber que somos culpados de algo. Não importa o quê. A polícia é um memorando do pecado original.”
“Para se ser transparente é preciso disfarçarmo-nos de lixo.”

quarta-feira, outubro 06, 2004

Diário de Um Killer Sentimental, L. Sepúlveda


Diário de Um Killer Sentimental
“O rosto humano nunca mente; é o único mapa que regista todos os territórios que habitámos.”

Jacaré
“Eles eram anaré e obedeciam a uma lei tão velha como o mundo, porque, no começo de todas as coisas, o mundo era de água, e os homens e os animais viviam no dorso do grande jacaré. O réptil sonhava com frutos e havia frutos, sonhava com peixes e havia peixes, sonhava com tartarugas e também as havia. Mas um dia apareceu o primeiro ieashmaré e cravou um dardo incandescente no coração do grande réptil. Este, ferido de morte, chicoteou as águas dia e noite com a cauda. Deixou mil filhos, alguns tão pequenos como uma larva e outros grandes como um caçador, mas não disse qual deles tomaria o seu lugar. Por isso os anaré tinham de cuidar de todos, para que o doce tempo dos sonhos voltasse no dorso do grande jacaré.”

Hot Line
“Os bons polícias têm qualquer coisa de suicidas, o que os impele a levar o cumprimento do dever até às últimas consequências.”
“Entre os dois somavam oitenta anos, e tal cúmulo de tempo predispõe para o amor sincero, livre de espaventos, proezas ou desculpas, e, como não há nada a perder é um enorme lucro.”
“Nós, detectives rurais, sabemos conduzir automóveis, camiões, cavalos, barcos com motor fora de borda e pilotar aviões. Mas eu prefiro andar a pé, se não se importa.”
“o tempo tem mil vozes, e muitas delas são cruéis.”
“… sem se preocupar com as lágrimas, e o automóvel tornou-se estreito, pois todos os fantasmas do medo se refugiaram nele.”

sexta-feira, setembro 17, 2004

As pessoas dos Livros, F. Young

“Gosto de chuva, poupa lágrimas. Não, não é isso. Não lembro ao certo, e “ao certo” significa um mundo quando se trata de um verso.”
“… os enquantos são o quântico da literatura.”
“Aquele amor foi uma alga presa em meu biquini.”
“Um livro impresso deve ser respeitado por aquilo que é: a finalização de imensa dor, exaustão e generosidade.”
“Claro, todo mundo esquece mais ou menos das coisas que viveu, no momento em que um amor deixa de ser um grande amor. Quando um amor deixa de ser grande, ele não vira pequeno amor, vira pequeno estorvo.”
“Sentiu um cubo de gelo escorrer pelo meio do corpo – seria o prenúncio da morte? Um cubo de gelo?”

quinta-feira, setembro 02, 2004

Aldeia Nova, M. Fonseca

“Saem os homens para o trabalho ainda a manhã vem do outro lado do mundo.”
“… e sabe-se lá que noite escura é o passado dessa gente!”
“tudo lhe parece em miniatura. Tudo tal e qual, à parte um ou outro pormenor, mas inexplicavelmente diminuto em relação à recordação que lhe ficara. Decerto está errada a sua memória.”
“Bem vê que é o passado, o passado que enche a casa, desde os vestidos negros da avó até aos retratos suspensos das paredes. O passado que faz silêncio em todas as salas para melhor viver na quietude dos móveis, nos corredores escuros.”
“Na calma da noite o luar nasce quase lua cheia. Traz luminosidades e sombras como um sol já velhinho, amarelo, cansado e alumiar o mundo.”
“E, quando o presente é feio e o futuro incerto, o passado vem-nos sempre à ideia como o tempo em que fomos felizes.”

quinta-feira, agosto 12, 2004

Noturno Indiano, Tabuchi

“…, mas as fotografias fecham o visível num rectângulo. O visível sem moldura é sempre uma coisa diferente. E depois aquele visível tinha um cheiro demasiado forte. Melhor dizendo, muitos cheiros.”
“Não seu quem disse que no puro acto de olhar há sempre um pouco de sadismo.”
“…, nunca se deve tentar saber demasiado das aparências dos outros.”
“Na altura poderá parecer-nos um acontecimento não particularmente feliz, mas na recordação, como sempre nas recordações, purificada das sensações físicas imediatas, dos cheiros, das cores, da vista daquele bicharoco debaixo do lavatório, a circunstância perde os contornos e a imagem melhora. A realidade passada é sempre menos má do que efectivamente foi: a memória é uma falsária espantosa. É-se desonesto mesmo sem querer.”
“São tão estranhas as coisas.”

Le corps humain pourrait il bien n’être qu’une apparence. Il cache notre réalité, il s’épaissit sur notre lumière ou sur notre ombre.
Victor Hugo

terça-feira, julho 20, 2004

O vendedor de passados, Agualusa

“já nos liga, suspeito, um fio de amizade.”
“Creio que o fazem para provar o risco. Amanhã o risco há-de, talvez, saber-lhes a nêsperas maduras.
“… são os muros que fazem os ladrões.”
“Os homens ignoram quase tudo sobre os pequenos seres com os quais partilham o lar.”
“… todos os meus dias são inúteis, cavalheiro, eu os passeio.”
“Acho que nessa época era uma premonição. Agora é talvez uma confirmação.”
“Julga que a vida nos pede compaixão? Não creio. O que a vida nos pede é que a celebremos.”
“Às vezes sinto o mesmo. Dói-me na alma um excesso de passado e vazio.”
“tenho vai para quinze anos a alma presa a este corpo e ainda não me conformei. Vivi quase um século vestindo a pele de um homem e também nunca me senti inteiramente humano.”
“Um nome pode ser uma condenação. Alguns arrastam o nomeado … por mais que este resista, impõem-lhe um destino. Outros, pelo contrário, são como máscaras: escondem, iludem. A maioria, evidentemente, não tem poder algum.”
“O pior pecado é não amar.”
“Os meus sonhos são, quase sempre, mais verosímeis do que a realidade.”
“a última luz da tarde morria docemente na parede de trás.”
“A única coisa que em mim não muda é o meu passado: a memória do meu passado humano. O passado costume ser estável, está sempre lá, belo ou terrível, e lá ficará para sempre.”
“Ao chegarmos a velhos apenas nos resta a certeza de que em breve seremos ainda mais velhos.”
“A coragem não é contagiosa; o medo, sim.”
“A literatura é a maneira que um mentiroso tem para se fazer aceitar socialmente.”
“A verdade é uma superstição.”
“Deus deu-nos os sonhos para que possamos espreitar o outro lado.”
“Desconheço imensa gente. Nunca fui muito popular.”
“As pessoas morriam de tristeza. Até os cães se enforcavam.”
“… a natureza tem horror ao vazio.”
“Ninguém é um nome!”
“A minha infância está cheia de bons sabores. Cheira bem a minha infância.”
“Só somos verdadeiramente felizes quando é para sempre, mas só as crianças habitam esse tempo no qual todas as coisas duram para sempre. Eu fui feliz para sempre na minha infância.”
“Na grande literatura são raros os amores felizes.”
“A realidade fere, mesmo quando, por instantes, nos parece um sonho.”
“A felicidade é quase sempre uma irresponsabilidade. Somos felizes durante os breves instantes em que fechamos os olhos.”
“… e em particular aqueles que por essa triste pátria nos desgovernam, governando-se.”
“Não havia na sua vida nada de interessante, excepto as vidas interessantes de duas ou três pessoas que encontrara no caminho.”
“Há verdade, ainda que não haja verosimilhança, em tudo o que um homem sonha.”
“A nossa memória alimenta-se, em larga medida, daquilo que os outros recordam de nós.”
“A memória é uma paisagem contemplada de um comboio em movimento.”
“Fui quem fui porque me faltou coragem para ser diferente.”
“A felicidade nunca é grandiosa.”
“Decidi começar a escrever este diário, hoje mesmo, para persistir na ilusão de que alguém me escuta.”

sexta-feira, junho 18, 2004

Fazes-me Falta, Inês Pedrosa

“Deus procura primeiro os que sofrem antes do conhecimento específico da dor, talvez porque os outros sabem demasiado para poderem ser salvos.”
“Não era a morte que te incomodava, mas o vagar dela, a tortura da doença.”
“Mas o estilo é uma maneira de ser, não uma farda de fim-de-semana.”
“… mas tudo aquilo de que duvidamos é possível,…”
“A morte é um segredo bem guardado, o único de cujos os direitos de autor Ele não prescindiu.”
“… ampliações máximas de pormenores mínimos.”
“eras uma tese de doutoramento existencial em movimento.”
“Mas rala-me pensar que posso não ter mais do que ideias-de-reacção.”
“Pai nosso, eu não quero já o céu. Aos vivos, incomoda-os o cheiro dos mortos.”
“… cheiro a medo que é talvez o cheiro derradeiro.”
“Passei a vida inteira a querer interpretar-te – oh! delicioso desperdício! – e nem sequer era por amor.”
“… ficámos a ver a primeira demão do sol sobre os telhados…”
“… a relatividade das entregas como regra de entrega absoluta.”
“… em busca dessas palavras a menos…”
“… nessa coragem da incompletude…”
“… uma alma capaz de acrescentar cor à tela que lhe apresentamos.”
“Coxeavas um bocadinho da alma, lá aparecia um rasto de lama debaixo da bainha, mala feita à pressa, com a roupa engelhada de quem muito viaja.”
“… nesse rascunho de nuvens…”
“Só para os vivos os mortos têm passado – o pior da morte é este presente obrigatório…”
“Amar em abstracto é muito mais ágil do que amar em concreto.”
“Não há entendimento para o sofrimento dos outros…”
“Um desespero pelo bem que lança pó de estrelas nos olhos e apaga os pequenos ressentimentos quotidianos.”
“A alma é um vício.”
“e aquilo que nos transforma é nosso, meu traste, queira ou não queira.”
“Quando as coisas deixam de durar, alteram-se.”
“… o amor que sobrevive é o das apoteoses obscuras, que não aguentam sequências.”
“… o Bem … prefiro chamar capacidade de renovação humana.”
“Os semeadores de horror sempre foram uma minoria – uma minoria eficaz, sim…”
“Uma memória que me fala sobretudo, como todas as memórias, daquilo que não existiu. Nesta fotografia não te esqueço. Meticulosamente, de cada vez que me esforço por reter-te e começo a inventar-te. Tudo em ti tem asas, agora – o teu riso, os teus passos. Até nas poucas frases que de ti recordo há um restolhar de penas.”

quarta-feira, maio 26, 2004

Contos do nascer da terra

… mutilado de Guerra e incapacitado de paz.
A cozinha é onde se fabrica a casa inteira.
É que o tempo namora com ele próprio. Só finge que gosta de nós.
Eu nasci na arrecadação da paisagem, num lugar bem desmapeado do mundo.
Como se esse nó de forca fosse o meu cordão desumbilical.
Que o amor é como o mar: sendo infinito espera ainda em outra água se completar.
Os que beijam são sempre príncipes. No beijo todas são belas e adormecidas.
Na vida tudo chega de súbito. O resto, o que desperta tranquilo, é aquilo que, sem darmos conta, já tinha acontecido.
Domingo não é dia. É uma ausência de dia.
Você tem doença da água: mesmo da nuvem sempre regressa.
A morte gosta muito de ouvir cantar. Se distrai de mim e dança.
Velhos são aqueles que não visitam as suas próprias idades.
De improvável a vida é uma goteira pingando ao avesso.
Nessa altura eu receava o amor. Não sei se temia a palavra ou o sentimento. Se o sentimento me parecia insuficiente, a palavra soava a demasiado.
Eu quero a paz de pertencer a um só lugar, a tranquilidade de não dividir memórias. Ser todo de uma vida. E assim ter a a certeza que morro de uma só única vez.
Me deram o caso para que lhe desvendasse os acasos.
Demorei em coisas nenhumas.
A punição do sonho é aquela que mais dói.
Em sua maior parte, o matrimónio é um maltrimónio. Os dois pensando somar, afinal, se traem e subtraem.
O que o homem tem do pássaro é inveja. Saudade é o que o peixe sente da nuvem.
O cansaço é um modo do corpo ensinar a cabeça.
Há mulheres que buscam um homem que lhes abra o mundo. Outras buscam um que as tire do mundo. A maior parte, porém, acaba se unindo a alguém que lhes tira o mundo.
A vida é um por enquanto no que há-de vir.
… a água corre com saudade do que nunca teve: o total, imenso mar.
… suas vestes eram a sujidade. Havia quase nenhuma roupa em seu sarro.
… o vagabundo se ergueu e apressou umas passadas para alcançar o longe. Se entrecruzou com a sua sombra, assustado de haver escuro e luz.
… os homens se comportam, neste mundo, como estrangeiros. A machice é arrogância dos que têm medo, mais excluídos que emigrantes. Só as mulheres são indígenas da vida.
Tal pai, fatal filho.
A tristeza é uma janela que se abre nas traseiras do mundo.
Estrangeiro é o lugar onde não se espera ninguém.
- homem não deve mexer em sangue. Só a mulher.
- e porquê?
- em vocês, homens, o sangue anda sempre junto com a morte.
- você fala coisa que não sabe.
- a mulher é que pega no sangue e faz nascer uma outra vida.
Sempre onde chego é um lugar. Mas abrigo maior não encontrei senão nas paragens da memória.
Verdade é como ninho de cobra: se confirma apanhando não o ovo, mas a fatal picada.
A gente nasce grão. Morre terra.
Deus é bonito de lhe não vermos, Padre. Mesmo eu estou negar de ir para o céu para não sofrer desilusão.
Entendo só de raízes, vésperas de flores.
Formigas transportam infinitamente a terra. Estarão mudando eternamente de planeta? Estarão engolindo o mundo?
Sei só escrever palavras que não há.
… a lua morre e é grande enquanto as estrelas, ainda que pequeninas, ficam a brilhar.
Nem tudo se explica, para que se compreenda melhor.
Quando não se podem tomar decisões só se tomam decisões erradas.
Quando o pão é magro quem escasseia é o homem.

Mia Couto, Contos do nascer da terra

quinta-feira, maio 13, 2004

Fica Comigo Esta Noite, Inês Pedrosa

“E tive-te, atrás do espelho, todas as manhãs.”
“A mesma, com a luz das rugas que me faltavam no tempo…”
“Não acreditavas em nada, vivias num aquário de sonhos impossíveis que faziam de ti um anjo negro, abismo de lágrimas congeladas. ”
“… e foi esse que o meu corpo ensinou aos outros homens, aos vários em que tentou enganar a tua ausência, ao único que soube contornar a tua ausência para permanecer em mim. ”
“Os olhos da mulher de um homem que nos ama são indiscretos. ”
“… parece-me que a ausência de memória é a grande quaestio do nosso tempo. ”
“E depois vamos os dois ter saudades da vida que não partilhámos. ”
“É uma questão de sorte, e a sorte não diz muito da pessoa. Não lhe pertence. ”
“Acreditamos naquilo que precisamos, não é? ”
“Mas as regras do jogo de Deus são outras, …: temos apenas a liberdade das nossas escolhas, os anjos observam, anotam os pontos que as pequenas peças cá em baixo vão somando, suspirarão talvez diante da absoluta previsibilidade da violência, do infinito tédio da violência, e é tudo. ”
“Há muitas maneiras de escolher o mesmo destino. ”
“Ainda não havia estrelas esquecidas pelo céu…”
“Agora posso escrever-te, porque te escrevo para mim. ”
“Só nos livros o amor racha corações em relâmpago. ”
“… eternidade, que é o sitio onde todas as recordações desapareceram. ”
“Deixei de ter caves e sótãos dentro de mim, corredores escuros onde o vento do medo uivava. ”
“O bom advogado é o mais eficaz na defesa da injustiça. ”
“Todo o amor é uma prisão, minha querida, uma prisão inventada por nós contra a escancarada brutalidade da vida. ”
“A beleza está é no coração de quem a sente…”
“Os homens são todos faro, como as mulheres faróis. ”
“O esplendor da Europa fez-se da teimosia de dobrar o mundo até o fazer coincidir com os sonhos. ”
“… a ilusão do domínio, a maior e a mais masculina das ilusões. ”
“Mas há sempre uma noite mais escura do que a escuridão do mundo…”
“A dor entra pelas pregas do tempo, molda-lhe o tecido, dá-lhe corpo.”

Amor, António Mega Ferreira

“… achava a utopia uma forma de vaidade pessoal,…”
“… o conhecimento do mundo devia servir-nos para compreender a razão das diferenças, …”
“… e as cores todas ficam em ti como tu ficas no mundo: exactamente.”
“… a indiferença vaga e casual com que um homem se refere a coisas passadas verdadeiramente importantes, …”
“às vezes, como náufragos, precisamos de nos agarrar a uma reminiscência banal, para evitarmos que tudo se dissolva na falsa enunciação da memória, na sua trágica encenação de efeitos sem correspondência com a realidade.”
“… morrer nem sequer é uma surpresa contingente, apenas uma circunstância: morremos aos poucos, pouco a pouco,…”
“… todo o amor é um acto de identificação e reconhecimento. Encontramos na pessoa amada, não um reflexo, o que seria pobre, mas uma ressonância da nossa própria alma.”
“E ter todo o tempo do mundo é que é amar.”
“Alguma coisa eu queria ter escrito aqui, abri a entrada, deixei-a assim dias a fio. O que se perdeu? O que ficou por dizer? A percepção desta ausência, a sensação de que algo desapareceu sem deixar rasto, dá-me a medida de tudo o que ficará por escrever, das coisas e dos dias, e das pessoas, e das ideias, e isso é uma dor e uma desolação. Era Inverno, devia estar frio, talvez chovesse. E é tudo.”
“… uma mulher atormentada pela sua própria incapacidade de gerar o drama que julgava ser necessário para alimentar a escrita?”
“… cheia unicamente de coisas singulares, destinadas apenas a serem conhecidas por um único ser e certamente inexplicáveis.”
“… entre o passado e o futuro, que é apenas a outra metade do que nunca há-de acontecer.”
“… porque se convencera que era preciso viver uma vida para poder escrevê-la. O seu romance, esse sim, é que talvez desse uma vida.”

quinta-feira, março 11, 2004

Os Fantasmas de Pessoa, Manuel Jorge Marmelo

A morte é a curva na estrada, morrer é só não ser visto.
Fernando Pessoa

-… o destino é uma estrada cheia de curvas e contra-curvas.
-… o número de crédulos será tanto maior quanto mais ousada for a mentira.
-A vida deixa de fazer algum sentido se nos abandona a certeza de que alguém vela por nós e cuida para que a maldade do mundo não fique impune.
-Talvez fosse ele, talvez fosse eu. Sucede-me muitas vezes não saber quem sou.
-A mais importante característica das coisas secretas é que elas permaneçam efectivamente em segredo.
-…, não vendo e não sabendo, sequer, que coisa seja a felicidade, aqueles que a escuridão oprime não podem sequer aspirar a ser felizes, conhecendo como conhecem, a angústia do medo e a servidão.
-…, a necessidade de viver tudo de todas as maneiras, inteira e profundamente, como forma de conhecimento da verdade que há dentro de cada homem.
-… a vida é isto: a eterna incerteza.
-Pois bem: a procura da plenitude. A face de todas as coisas e também o seu contrário. A verdade toda e a impossível verdade, a oculta, aquela que jamais alcançaremos.
-Nós estamos na confluência do tempos e do espaço, no sítio onde o mistério último, a palavra perdida, se manifesta.
-Eu não sou um iniciado. Simplesmente sinto-me múltiplo. Sinto crenças que não tenho. Sinto-me viver vidas alheias a mim, incompletamente, como se participasse na vida de todos os homens. Mas não sou um iniciado.
-A mentira é só uma das metades da verdade e só conhecendo a ambas e negando-as depois chegaremos perto de conhecer tudo.
-Porque é que, para ser feliz, é preciso não o saber?
-…, o raciocinador nunca crê que a razão possa ser substancialmente irracional.
-Às vezes não sei se enlouqueço deveras ou se apenas vivo demasiado intensamente a loucura das personagens.

Literatura ou Morte

Literatura ou Morte é uma das mais interessantes colecções literárias que vi nos últimos tempos, e que sigo incondicionalmente.
A colecção é originalmente da responsabilidade de um editora brasileira e em Portugal a edição está a cargo da Asa. A proposta inicial foi contactar autores contemporâneos vivos e desafia-los a escrever um livro em que estivessem obrigatoriamente envolvidos uma morte e um escritor já falecido. Existem já oito livros editados e todos eles muito curiosos, porque é possível sempre ficar a conhecer um pouco da escrita de novos autores vivos (alguns nem sequer sabia da sua existência), um pouco da vida dos já falecidos e também entrar no espírito da sua escrita.
Desde modo recomendo todos os livros:
Adeus Hemingway, Leonardo Padura Fuentes
Os Orangotangos de Borges, Luis Fernando Veríssimo
Os Leopardos de Kafka, Moacyr Scliar
A Morte de Rimbaud, Leandro Konder
Os Fantasmas de Pessoas, Manuel Jorge Marmelo
O Doente Moliére, Rubem Fonseca
Medo de Sade, Bernardo Carvalho
Stevenson Sob as Palmeiras, Alberto Manguel

sexta-feira, fevereiro 20, 2004

Stevenson sob as Palmeiras, Alberto Manguel

- acho que as histórias ensinam melhor do que os sermões, ou quase isso. As histórias dão mais o que pensar, porque são menos directas.

- prova apenas que a Palavra sempre haverá de sobreviver à carne.

- A palavra nostalgia (ele havia lido em algum lugar) for a cunhada no século XVII por um estudante alsaciano na sua tese de medicina para se referir à molestia a que sucumbiam os soldados suiços que se viam longe das suas montanhas natives.

- No seu caso, era o contrario: nostalgia era a falta dolorosa que sentia dos lugares que jamais conhecera.