sábado, dezembro 30, 2006

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Algum Zapping em Dezembro

Cuidado com a língua
Esta é uma excelente aposta da RTP e que espero venha a ter uma grande longevidade. Pela simplicidade, pela demonstração, pelos exemplos, pela informação, pelo humor. Um dos melhores exemplos de serviços público da estação estatal, estação esta que nem sempre está livre de alguns pecadilhos.

Números
A premissa é desvendar crimes utilizando fórmulas matemáticas que estabeleçam padrões, permitindo estabelecer modus, localizações e prever comportamentos. É uma demonstração de uma vertente para a aplicação da matemática à vida real.
Não tendo conhecimentos para sequer suspeitar da falência de alguns dos conceitos apresentados, é curioso pensar que demonstra através do entretenimento o que é esse papão da matemática aplicada, de que muitas vezes ouvimos falar, mas que nós, meros mortais, ou meros humanistas, não conseguimos perceber muito bem.

Prime suspect
Um dos pormenores que gostei nesta série foi o facto de que a polícia forense ao investigar os locais dos crimes ir devidamente equipada com a indumentária adequada de modo a não comprometer e danificar as provas encontradas. Tudo o que infelizmente o CSI não faz. O segundo pormenor foi a personagem da “canalizadora” com um humor mordaz e perspicaz a toda a prova. E, finalmente, a humanidade e terror da história contada.

A anatomia de Grey
Para quê anunciar durante duas semanas um horário em que depois a série não é transmitida? Ainda não percebi a lógica.

O Impressionista, H. Kunzru

- … o segredo de viver reside principalmente em separa aquilo de que se gosta daquilo que não se gosta. A sua dificuldade é que sempre arranjou muito pouco para inscrever no lado positivo do balanço.
- Todo o mundo existe no passado.
- Isto devia ser tudo. Porém, pequenos milagres são entretecidos no desenho de todos os grandes acontecimentos.
- Talvez, quando se sente a falta de uma coisa o suficiente, seja possível forçá-la à existência.
- Uma pessoa é aquilo que sente que é. Ou, se não, deve sentir-se aquilo que é. Mas se uma pessoa for uma coisa que não sabe que é, quais são os sinais? Qual é a sensação de não ser quem se pensa que é?
- A tarde torna-se fim da tarde,
- O fim da tarde em noite.
- Há perguntas que é melhor não fazer. Há outras, quando feitas, que é melhor ficarem sem resposta.
… o poder de se furtar à vista é simplesmente uma forma mais profunda de androgenia.
… uma pessoa que se conhece formalmente não revela mais do que o papel que desempenha.
- … a diferença na dimensão do cérebro correspondem ao grau civilizacional e à capacidade de pensamento abstracto em todo o mundo.
- … começou a sentir-se deslumbrada com a plenitude do mundo, com a plenitude das coisas que não compreendia.
- O secretismo sugere profundidade e é esta sugestão que excita a fantasia das pessoas quando o vêem.
- A convicção não passa de uma sensação banal no estômago.
- Anglicidade é mesmice e o conforto da repetição.
- A inacção alimenta todo o género de males. É quando temos tempo para meditar que ficamos mais vulneráveis.
- Nem dentro, nem fora, nem participante, nem espectador indiferente, torna-se um deus menor do registo, observando as acções dos outros com concentração desapaixonada, marcando-os como pontos ou pequenas figuras no seu livro de quadrícula rectangular.
- Apesar da universidade ser geralmente entendida como uma instituição dedicada à excelência académica, é, na realidade, uma máquina de formação de carácter. O carácter não é inteligência.
- Custa-lhe acreditar, mas se a vida lhe ensinou uma coisa, foi que a fé é facultativa.
- Nós somos pessoas do dia a seguir.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Conseguirá...

Utilizo este espaço em branco para tentar aliviar a espécie de compressão que sinto no interior da minha cabeça. Será somente cansaço que me faz assim sentir? Ou será este deambular sem quaisquer objectivos definidos. Este andar à deriva ao sabor de uma brisa que não sopra e me mantém no mesmo local.
Conseguirá este vazio branco contrapor o vazio em negro da minha mente?

Dicionário

Salso - do Lat. Salsu, adj., salgado.
Bragal - de braga, s. m., a roupa branca de uma casa; pano de linho grosso de que se faziam as bragas; enxoval; medida de 7 ou 8 varas usada como unidade monetária em certas transacções.
Hierofante - do Lat. hierophante < do gr. hierophántes, o que explica os mistérios aos neófitos, s. m., sacerdote que presidia aos mistérios de Elêusis, na Grécia; em Roma, pontífice magno; fig., indivíduo que se inculca sabedor de ciências ou de mistérios.
Mentraste - do Lat. ment(h)astru, s. m., Bot., planta sinantérea medicinal; hortelã silvestre.

A Morte de Um Apicultor, L. Gustafsson

- … cada sítio pertence a uma época diferente.
- As doenças dão-lhes uma identidade. Isto é ainda mais verdadeiro para alguns dos mais velhos e humildes. A doença dá origem a um interesse pelas suas pessoas que nunca lhes for a dispensado quando tinham saúde.
- Talvez sejam sempre as nossas ideias que amamos.
- Não precisamos conviver com a realidade, podemos tranquilamente voltar a viver com a nossa ideia.
- Qual a distância máxima a que podemos amar uma pessoa? Resposta: menos de um milímetro. E sem nome.
- Parece não haver nada de que o subconsciente tenha tanto medo como a sensação de ser ninguém. E, servidor prestável, comecei a fabricar-me uma biografia!
- As pessoas que virão a significar alguma coisa para nós, encontramo-las não uma, mas pelo menos vinte vezes, antes de levarmos a sério o aviso.
- Eu tinha uma necessidade extraordinária de ser visto, naquele tempo. Se conseguimos seduzir alguém, então também conseguimos ser vistos.
- Sempre suspeitei que todas as soluções se encontravam algures entre a minha vida e outra.
- Desde que comecei a ter dores a sério, acontece uma coisa muito curiosa: são outras idades, outras recordações, que começam a tornar-se importantes para mim.
- A dor dramatizava o facto de eu ter um corpo, não, de eu ser um corpo.
- Nunca tinha compreendido que a possibilidade de nos concebermos a nós próprios como uma coisa una e ordenada, como um eu humano, depende da existência de uma probabilidade de futuro. O próprio sentido do eu assenta no facto de ele poder existir no dia seguinte também.
- Todas as coisas acabam por ter o sentido que nós lhe damos.
- O paraíso oferece problemas interessantes. O que é um estado de felicidade que se prolonga indefinidamente?
- … a palavra “eu” é a mais vazia de todas. É o ponto oco da língua.
- Recomeçamos. Não nos rendemos.
- O ser humano, esse estranho animal, balançando entre animal e esperança.
- O medo de enlouquecer é no fim de contas o medo de nos transformarmos noutra pessoas.
- No fundo de cada pessoa há um enigma impenetrável. O negro da pupila não é mais do que essa noite sem estrelas. O negro no fundo dos olhos não é mais do que as trevas do próprio universo.
- Só como enigma o ser humano assume toda a sua grandeza e transparência.
- Ninguém está em sua casa no universo.
- Eu, eu, eu, eu… ao fim de apenas quatro repetições uma palavra sem sentido.

- Era de um negro diferente, o negro esperto e enxuto dos répteis. Comparado com o olho de um réptil, o de um mamífero parece viscoso, meio embriagado pelas forças quentes da vida. O réptil olha a direito para o escuro, com um olhar seco. Sabe deus o que ele vê. Algo – diferente?

sábado, dezembro 16, 2006

Ando há dias a tentar reunir a coragem necessária para te contar o meu sonho. Para te dizer como no meu sonho despertei abraçada a ti. Melhor, abraçada por ti. A paz que senti com o teu calor que me aquecia a alma, quis dizer-to. O conforto dos teus braços que me queriam no seu círculo aberto. Tenho dificuldade em exprimir a serenidade que me deste nessa noite que sonhei contigo. E como não tenho coragem de dizer, escrevo-te, aqui, que quero acordar contigo sem ser num sonho meu.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

A que distância te posso amar?

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Aqui, ao meu lado, quando sinto o calor do teu corpo a invadir o meu? Além, quando o teu sorriso me faz sorrir também? Ao fundo da rua quando recordo os momentos juntos com prazer? Do outro lado da cidade, em que sabemos que não pensamos um no outro durante várias horas? Noutra cidade, em que pensamos apenas no momento do reencontro ou aqui, no milímetro da minha mente que se ocupa de te ter sempre presente em mim?

Amo-te na ideia de ti, em mim. Amo-te em mim.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

De crimen capitallis

Este livro sim, trouxe-me o Porto que percorri nestas férias. Os lugares são lugares reais, são lugares que visitei e fiquei a conhecer. Os jardins de Serralves e o seu anfiteatro, a baixa da cidade e os seus locais, o viaduto da alfandega, a penumbra da marginal. Agora, falta ficar a conhecer os locais comerciais, como; bares e restaurantes. E claro, muitos, muitos outros locais.
E este foi mais um capítulo na vida das personagens Jaime Ramos e Isaltino de Jesus e fornece uma maior viagem ao passado de Ramos. É um policial em que poucos ou nenhuns pormenores são revelados e que nos permite também uma incursão por terras brasileiras – ou não fosse esta outra paixão do autor – e pela sua pintura. Para quem viu há uns meses a série Um Só Coração alguns destes pintores brasileiros que se seguem não são novidade, mas aqui ficam:

Tarsila do Amaral - Llasar segall - Ismael nery - Vicente do Rego Monteiro - António Gomide - Victor Brecheret - John Graz - Cicero Dias - Di Cavalcanti - Candido Portinari - Anita Malfatti

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Um Crime Capital, F. J. Viegas

- … tinha recomeçado a vida depois de um divórcio por desinteresse mútuo.
- Era uma chuva fria porque vinha do mar. mas não era salgada, nem tinha aquela leveza da espumas das ondas.

- O que esperava que acontecesse então? – Que me traísse só. Que mos pusesse como uma mulher os deve pôr a um homem. Com categoria, claro, evidentemente. E com classe. E, se possível, em segredo. Ela era capaz disso tudo.

-… a partir dos quarenta, salvo erro, tomam-se opções muito claras sobre o casamento, as conveniências e as aparências.

- Dava-me jeito. Mas suponho que não vale a pena falar do que me dava jeito. O mundo é como é.

- … ao contrário do vinho, que não tem finalidade alguma quando é bebido com prazer.

- … não gostava de sonhos, nem de pesadelos, nem do próprio sono, até. Preferia a memória, que poucas vezes o traíra, e ele sabia que isso era uma sorte.

- … os bares devem ter uma luz própria, um tipo de bebidas e um tipo de frequentadores e todos os bares devem ter os seus homens perdidos, passageiros desesperados do fim da tarde, bebedores silenciosos, fumo nas paredes, mas sobretudo aquele silêncio de que ele gostava.

-O meu mundo acaba na Praça de Espinho, aos sábados, para comprar peixe. Daí para baixo já é o fim do mundo.

- A minha vida misturou-se comigo. Quer dizer, apareceu na história que andava a trabalhar. Como é que isso se resolve?

- Acredito só em coisas simples: maldade, inocência e vingança. A justiça é outra coisa, e nunca a encontrei. Mas encontrei a inocência, encontrei a maldade e encontrei a vontade de vingança.
-
O que fazes com essa idade? Não reservaste nenhuma memória que te salve, nenhum nome que te absolva, nenhum caso amoroso que explique as tuas tragédias pessoais, particulares, únicas, desinteressantes, tão banais que aparecem explicadas em todos os livros.

- Só ficamos surpreendidos de vez em quando, e isso é só quando queremos ou quando estamos distraídos. Já nada me surpreende.

-Falta-te alguma experiência literária para seres um bom polícia. Todos nós devíamos antes de entrar para isto ler uma biblioteca, interessarmo-nos por alguns livros. Eu comecei muito tarde. O Carvalho começou muito mais tarde. Mas é fundamental.

- Mas o preço funciona em função da sua raridade e do mito que se criou.

- Tímido o sorriso. É o sorriso que se usa nestas alturas, o dos parcialmente vencidos nas pequenas batalhas. Aprendera a usa-lo há muito tempo e praticara-o com aplicação nas circunstâncias indicadas e mesmo nas outras, nas que requeriam descrição, dissimulação ou só frieza.

- O amor é a última das ilusões, a última ilusão, o último instante de luz.

- A vida toda é só um arquivo monumental de que se escolhem duas ou três passagens, dois ou três minutos.

terça-feira, novembro 28, 2006

Marie Antoinette

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Este foi o meu primeiro Sophia Copolla e deu para perceber o que já tinha lido sobre ela como sendo uma criadora de ambientes. E o filme vive exactamente disso, do ambiente criado em torno de Marie Antoinette, ou melhor, que acompanha Marie Antoinette.
Não acho que seja um filma extraordinário, mas considere-o um bom exercício de estilo. Pega-se numa personagem histórica com uma imagem pública denegrida e procura-se dar uma versão diferente e quase oposta da mesma. Segundo alguns historiadores, esta imagem histórica que conhecemos não será tão negra como se pinta, mas esta versão de Sophia também não convence como real. Parece demasiado delico-doce. Talvez isso se deva ao exagero de doces e cor-de-rosa que povoam o écrã.

Doces em quase todos os fotogramas. Nos que não há, há cor-de-rosa, é sempre muito, demasiado rosa que só é quebrado pelo vislumbre de uns all stars azuis. Pois é! Deve ser criatividade artistica.

For a isso, o guarda-roupa é lindissímo, os cenários também, ou não fossem eles reais, e o desempenho de Kirsten Dunst igualmente. Mas para mim o melhor, e mais digno de nota, é Jason Schwartzman na sua composição de um Luís envergonhado, desajeitado e com uma enorme paixão por fechaduras.

sexta-feira, novembro 24, 2006

Dicionário

Vergontea - do Lat. virgulta, moita coberta de rebentos, s. f., Bot., ramo tenro de árvore; rebento; haste; fig., prole; filho; descendente.

Adstringir - do Lat. Adstringere, v. tr., unir, apertar, fazer encolher (os tecidos orgânicos); v. refl., cingir-se.

Meditabundo - do Lat. Meditabundu, adj., que medita; melancólico; reflexivo; pensativo; meditativo.

Sincipício - do Lat. sinciput < semi, metade + caput, cabeça, s. m., o alto da cabeça; cocuruto.

terça-feira, novembro 21, 2006

Minto até ao Dizer que Minto, J. L. Peixoto

- Nenhum dos seus gostos podia ser partilhado com uma multidão de desconhecidos.
- … não sei explicar todas as rodas dentadas daquilo que aconteceu.
- Estar errado é mentir sem saber. Errei quando disse tudo e quando não disse nada. Errei quando disse todos, ou ninguém, ou sempre, ou nunca. Seria tão bom se tivesse uma explicação simples para o mundo.
- Cheguei à rua quando a tarde chegava ao seu próprio descanso.
- … aceitar que os homens com mais de dois metros vêem o mundo de uma maneira que nunca poderei compreender completamente.

sexta-feira, novembro 17, 2006

Os Filhos do Homem

Num futuro demasiado próximo, a humanidade será atingida pelo flagelo da infertilidade em proporções que colocam em risco a continuidade da espécie humana. A tensão e o desespero causados pela falta de perspectivas de um futuro culminam num estado de sítio globalizado.
É neste ambiente caótico que a personagem de Clive Owen é desafiada a acompanhar uma jovem grávida a um porto de abrigo onde poderá criar essa criança, que tem sobre si o peso da esperança de continuidade de uma humanidade em vias de extinção e que por isso mesmo é tratada como que um bem a ser detido e utilizado como moeda de troca sem qualquer atenção às suas necessidades enquanto ser individual e com direito a uma harmonia.
É de salientar a plausibilidade da história, a cenografia e a construção de ambientes extremamente realista e a realização.

Timbuktu, P. Auster

- … não há criatura que consiga ser alguma coisa nesta vida se não houver alguém que acredite nela.
- A diferença não residia no facto de um ser pessimista e o outro optimista, mas sim no facto de o pessimismo de um ter conduzido a um etos de medo, ao passo que o pessimismo do outro produzira um ruidoso e refractário desdém por Tudo Aquilo que Existia.
- Deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrámos. Isso é o melhor que um homem jamais poderá fazer.
- Eu próprio as pus muitas vezes e a única resposta a que cheguei em toda a minha vida é aquela que não responde a nada: porque eu quis que fosse assim. Porque não tive alternativa. Porque não há respostas a perguntas destas.
- E o poeta? O poeta, suponho, ficou algures no meio, no intervalo entre o melhor e o pior de mim.
- … uma jogada desesperada no vil jogo o Ego, que era precisamente o jogo em que toda a gente perdia, em que ninguém jamais poderia ganhar.
- Os pombos podiam ser mais estúpidos que os cães, mas era por isso mesmo que Deus lhes tinha dado asas em vez de cérebros.
- … era a prova provada de que o amor não era uma substância quantificável. Havia sempre mais amor algures e, mesmo depois de se ter perdido um amor, não era de modo nenhum impossível encontrar um outro.
- … a primeira vez que compreendia que a memória era um lugar, um lugar real que se podia visitar, e que passar um bocado no meio dos mortos não era necessariamente mau, que, na realidade, isso podia ser uma fonte de grande conforto e felicidade.
- É esse o problema com a gente miúda. Podem ter as melhores intenções, mas não têm poder nenhum.

terça-feira, novembro 14, 2006

De portus ficcionis

Visitei agora o Porto.Ficção porque julguei que só agora saberia identificar alguns dos seus locais e assim compreeender as suas intesidades e profundidades. No entanto, a maioria dos contos desta colectânea elaborada son a égido da Porto 2001 tanto poderia, a meu ver, ter como pano de fundo o Porto como qualquer outra cidade. Claro que são mencionados locais, mas estes nem sempre conferem qualquer intensidade às histórias de que servem de cenário. São apenas isso: cenários, e não personagens de súbtil intervenção, como inicialmente esperava.
Talvez o erro seja meu. Não se deve esperar nada dos livros, apenqas receber o que eles estiverem dispostos a revelar.
Curioso é o facto de todos os textos dos autores brasileiros terem como temática o resgate de um passado familiar: uma mãe, um avô, uma infância, uma memória de palavras. É a maldição deste nosso país irmão que encontra em Portugal um sempre presente fantasma do passado. Nunca é a visão de um começo, de uma tábua rasa de descoberta, há sempre um grão de passado. Essa fatalidade nacional que nós mascaramos de saudade e que inevitavelmente passamos aoutros paises da lusofonia. Portugal é sempre um retorno e nunca um início.

sábado, novembro 04, 2006

Porto. Ficção, VVAA

- Mas as freiras não esquecem nunca. São os elefantes de Deus.
- O homem nasceu só e vai morrer só. Por mais que tentem encobrir a verdade de Deus.
- A saudade é essa forma de fazer do horror o orgulho da nação.
- Os nossos contemporâneos da infância são a prova viva de que um dia também fomos jovens.
- Sem eles, a nós não restava mais do que a velhice.
Bernardo Carvalho
- Qualquer poeta sabe que se deve começar pelo espaço…
- … o espírito do corpo como o espírito do lugar, começa exactamente pelo seu exterior.
- O grande problema do poeta é trabalhar demasiado a metáfora, esquecer demasiado a intriga.
Lídia Jorge
- Minha infância foi tão extensa que nunca notei esse tamanhinho do lar. Ainda hoje, esse tempo é o lugar mais extenso do universo.
- Uma reapredizagem tão profunda implica uma radical perca de juízo. Isto é, implica a infância.
Mia Couto

- … atingiu os sessenta anos de idade. Era altura de pensar na vida. Ou melhor, na morte e nas suas inconveniências.
Pepetela

- … os dias são o arco de luz que só a memória perfaz…
- Uma cidade não se dá, come-se devagar como um nome estranho que resiste na boca, uma cidade não tem horas certas, de repente estamos na hora absoluta, às vezes é só um minuto essa hora.
- … um nome é a paz de qualquer chegada.
Rui Nunes

- Como uma árvore, às vezes penso, o homem pode subir alto, mas as raízes não sobem. Estão na terra, para sempre, junto da infância e dos mortos.
Vergilio Ferreira

sexta-feira, outubro 27, 2006

Reminiscências esfumadas

Por vezes, antes de dormir, penso na minha vida sob vários aspectos: o que desejo, o que tenho, o que necessito, o que de mim esperam, e vou conjugando todas estas perspectivas até que chego a sábias conclusões e decisões. Depois o sono chega e ao longo da noite invadem-se imagens várias que me intrigam e distraem e me levam a lugares e realidades imaginárias. E é no meio desta azáfama virtual que a manhã me encontra e me desperta para os afazeres do quotidiano.
E quando tento trazer à memória a agitação da noite, não consigo. Vislumbro apenas reminiscências esfumadas da noite que por mim passou. Não consigo aceder às conclusões e decisões tão sabiamente atingidas, nem às imagens que me povoaram a mente. De quando em quando parece que encontro o fio da meada, mas é apenas mesmo um pequenino fio, nada mais. Nada mais.

quinta-feira, outubro 26, 2006

O Perfume, P. Suskind

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- Tinha horror aos pormenores técnicos, porque os pormenores significavam sempre dificuldades e as dificuldades significavam sempre uma perturbação da sua tranquilidade de espírito, o que lhe era impossível suportar.
- Apenas escolhera a vida por uma questão de desafio e pura malvadez.
- … o espírito do que havia sido, liberto dos importunes atributos da presença…
- Conhecia no máximo raríssimos estados de um morno contentamento.
- A infelicidade de um homem resulta em não querer manter-se tranquilamente no seu quarto, onde pertence.
- … passara a vida a renunciar, ao passo que nunca havia possuído e perdido depois.